Olhos não sabem mentir

Olhos sabem disfarçar
Mas não sabem mentir

Olhos sabem:
Flertar
Se encantar
Encarar
Se entregar
Sorrir
Chorar

Sorrisos sabem fingir
Olhos não sabem mentir

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Foi o pior melhor relacionamento

Era o primeiro relacionamento sério de ambos. Era a primeira vez que ambos estavam realmente apaixonados. Era um namoro cheio de sonhos e planos, ainda que com duas pessoas iniciando realmente a vida. Não sabíamos a dimensão do mundo, nem as surpresas da vida e muito menos como ela iria nos agredir. Tínhamos uma visão poética do mundo, do futuro e de nós mesmos. Vivemos tudo que uma relação assim tem direito. Amor, confiança, sexo, brigas, términos, voltas, traições, insegurança, desejo, ciúme, medo, paixão. Namoramos por cerca de cinco anos, com muitas inconstâncias e frustrações. Frustrações proporcionais ao aprendizado que tivemos. Tivemos as dificuldades de um namoro a distância. Tivemos um período de amor proibido. Tivemos um período em que parecíamos casados que moravam nas casas dos pais. Amamos, sofremos, choramos. Tudo com intensidade. Nos decepcionamos e nos magoamos mais do que qualquer outro namoro ou paixão que estivesse por vir. Foi a primeira vez que nos sentimos magoados, iludidos ou frustrados numa relação. Foi o aprendizado pra todas as próximas. Foram as primeiras vezes a sentir tais sentimentos. Era como descobrir um mundo nunca explorado por nós. Foi uma relação de sentimentos primordiais. Foi a pior relação. Foi a melhor relação. Hoje, podemos até termos as mesmas emoções, mas não os mesmos sentimentos, se são maiores ou menores agora, são dos aprendizados que essa nos trouxe.

Você é como um ótimo livro

Você é como um daqueles que a gente começa a ler e não quer que termine. Notamos as páginas do início se passando de forma rápida e as páginas para o final diminuindo de forma impressionante. Queremos ler ansiosamente para saber como termina, mas não queremos que o mesmo chegue ao fim. Assim é como me sinto quando estou com você. Sinto uma sensação maravilhosa a cada vez que você está perto, mas não quero que essa sensação termine.

Decidiu correr; precisava pensar

Amarrou o cadarço do tênis esquerdo e depois o do direito. Conferiu se estavam firmes. Levantou, desceu as escadas do prédio em que morava enquanto configurava o aplicativo de corrida no celular e selecionava uma playlist no mesmo.
Mais uma vez os pensamentos estavam desorganizados na mente, mais uma vez necessitava correr e reorganiza-los. A corrida sempre fora um refúgio. As músicas selecionadas sempre foram um ponto de equilíbrio emocional.
Há tempos não corria, embora fosse um dos seus esportes favorito. Começou com um trote bem leve. Ele considerava os minutos iniciais os piores momentos da corrida. São quando os músculos saem da inercia em busca de um ritmo apropriado. Ele não estava preocupado com o tempo, apenas queria correr e tentar manter quase o mesmo ritmo em cada quilômetro. Apesar da falta de preparo físico era um corredor experiente, aos poucos conseguiu encontrar um ritmo confortável entre as passadas.
Ele corria pra organizar os pensamentos e pensar, embora quando estivesse correndo parecia não pensar em, sua mente relaxava e os pensamentos se organizavam. Se perguntou porque tinha ficado tantos meses sem correr. Era sempre assim que acontecia; voltava a correr, ficava por um tempo, mas aos poucos era engolido e puxado pela rotina e o comodismo.
Sentia os músculos cansarem, as pernas ficarem pesadas, mas conseguia continuar. A música tocava alto nos fones de ouvidos. Vez ou outra cantava alguns trechos, atento em não deixar o ritmo cair. Sentia-se bem. Sentia a endorfina.
Voltou ao apartamento. Estava extremamente suado, a respiração ofegante e já sentia as dores do esforço físico nas pernas. Pegou uma garrafa de água na geladeira e bebeu por completo. Descansou mais um pouco antes de ir pro banho. A água caía sobre ele trazendo uma enorme sensação de prazer.
Acordara sentindo as dores musculares da corrida no dia anterior. Permaneceu deitado. Estava exausto, porém satisfeito. Os pensamentos continuavam em ordem.

Então, ela apareceu…

Nós vamos mudando aos poucos, até nos tornarmos totalmente estranhos para nós mesmos.
Até alguns meses atrás, eu era um insensível, daqueles que fugiam de relacionamentos por conta de um péssimo histórico. Eu discursava contra amor e qualquer coisa relacionada a ele. Eu amava o casual. Noites casuais, pessoas casuais, camas casuais…
Eu era do tipo que saía, sorrateiramente, no meio da noite. Andando na ponta dos dedos, apenas pra não dizer aquelas mentiras de praxes, sobre querer repetir a noite.
Eu evitava relacionamentos ou qualquer coisa que parecesse ou pudesse se tornar um. Algumas pessoas tentaram, foram persuasivas e persistentes. E quando eu me tocava estava no quinto encontro ou com o fim de semana programado, e sem perceber, eu fugia. Deixava o telefone tocar. Demorava pra responder uma mensagem. Dava aquelas desculpas com mentiras sinceras de quem não quer compromisso.
Às vezes, eu não precisava de desculpas, elas me encontravam acompanhado, ou num barzinho, naquele dia que eu disse que ficaria em casa. Fugia delas de forma consciente, inconsciente ou com uma forma de olhos mais bonitos.
Sempre mostrei de início que não queria me apegar, mesmo assim é inevitável o sofrimento de alguém. Não é você, sou eu. E a vida foi seguindo.
Eu frequentava boates e barzinhos apenas pelo prazer da conversa ou do ambiente. Passava a noite entre conversas e goles de uísque puro. Sorria, discordava, acenava ao garçom e então mais uma noite terminava.
Eu estava acomodado com a vida de solteiro. Sem essa necessidade de ter alguém. Eu me bastava. Eu me sentia bem. Já não era mais o Thomas da Gabi do Direito e nem da Manu de Psicologia. Era apenas o Thomas.
Então, ela apareceu, não foi em nenhum dia excepcional ou atípico, era um dia comum, desses que nem o clima mostra que algo diferente está prestes a acontecer. E com uma conversa simples e despretensiosa, nós trocamos sorrisos, dividimos gostos em comum e repulsas também, discordando em outros pontos. Os gostos em comum se tornaram atrativos para futuras conversas. As trocas de filmes, livros e músicas começaram. E com o jeito meio tímido, meio tô entrando, ela se encaixou nos meus horários e eu nos dela.
Meu discurso tinha mudado, eu que abominava relacionamentos me encontrava num. Torcendo que fosse diferente.

Garçom, mais uma, por favor

As mãos ainda trêmulas, culpa das acumuladas bebedeiras dos dias anteriores. Acordo na segunda, ou será que é terça? A ressaca parece não ter fim. Mais uma vez impulsivo, mais uma vez sem limites, mais uma vez pedindo uma saideira atrás de outra. Parece ser impossível deixar o bar. Mais uma vez não rejeitando e sempre dizendo pode encher o copo. Traz a saideira, agora traz a expulsadeira. “Mais uma dose? É claro que eu tô a fim. A noite nunca tem fim, por que a gente é assim?”. A ressaca continua e parece não querer terminar hoje. Nesses dias eu prometo que nunca mais vou beber. Então, a ressaca termina e eu peço: “Garçom, mais uma, por favor.”

Reflexo de uma geração

Tenho me sentido muito impotente. Sinto-me como se estivesse velho demais pra recomeçar e jovem demais pra desistir de tudo. Sinto que preciso de uma guinada, uma mudança. Quero algo diferente. Porém sinto que com o passar dos anos me tornei um velho de pouca idade. Sinto-me engessado e temendo por mudanças. Estou acomodado e hoje represento bem a geração em que fui criado. Sinto-me preso a um presente que eu não quis, mas aos poucos fui me acomodando.

A luz no quarto permanece acesa

Ela não consegue dormir. Já passa das duas horas da manhã e o sono não chega. Tenta assistir televisão. Muda de canal várias vezes. Passa por todos os canais. Para em um por alguns minutos e depois volta a repetir o processo. Pega o celular. Olha as horas. Esquece as horas. Novamente olha pro celular querendo saber que horas são. Espera que ao tocar nele algo mágico aconteça. Ela espere que ele ligue na hora que ela pegar no celular. E com ele em sua mão, ela quer atender rapidamente na hora que tocar. Ela espera muito por isso, mas sabe que dificilmente irá acontecer.

Acumulando problemas

Sempre me considerei forte emocionalmente, embora isso seja uma enorme mentira. É que dificilmente saio gritando meus medos. E acredito que a maioria das pessoas têm problemas maiores que os meus. Então, sempre acho que consigo suportar mais, escutando e tentando ajudar com os problemas alheios, seja enxugando lágrimas, evitando que elas caiam ou buscando arrancar um sorriso onde não há motivo pra sorrir. Mas todos os meus medos, angustias e frustrações são guardadas comigo. Nem os mais próximos sabem. Até podem perceber que algo possa estar errado, mas logo digo algo superficial e depois uma piada pra mostrar que estou bem. E assim vou juntando meus problemas e os problemas alheios. Guardando. Acumulando. Até que um dia eles estouram. As lágrimas são inevitáveis. E no momento elas se confundem com a água caindo no chuveiro.