Ela

pequena e fragil

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Sorte nossa poder vê-la dançar

O corpo estava inquieto, assim como as luzes da boate piscando incessantemente. O rebolado dela era hipnotizador. Jogava o corpo pra um lado e o cabelo pro outro. As pessoas, em sua volta, olhavam, queriam apreciar aquele momento. Ela se agitava e meu coração palpitava. Meus olhos vidrados, admirados, extasiados. Era encantadora, sorria, dançava, olhava para os lados com um olhar perdido. Eu me perdia quando o olhar dela me encontrava. Sabia que estava sendo vista, não ligava, dançava sem se preocupar com nada. A música, os gritos, as luzes, a boate, tudo conspirava praquela perfeição. Ela dançava e tornava tudo ainda aquilo mais completo. Uma música acabou e outra começou. Sem descanso aos músculos ela continuava.

No sétimo dia, Deus foi ao cinema

Sou uma pessoa feliz, não digo totalmente feliz, porque como cantava Raul “ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez”. É que têm dias que acordo entediado e sentindo uma nostalgia poética de algo que eu não vivi. Ou talvez seja apenas alguma crise depressiva digna de “arianos”, mas nos dias que acordo assim preciso me distrair. E quando isso acontece, numa terça-feira chuvosa, o que temos pra fazer em Brasília? Acertou quem disse shopping ou cinema. Compro então alguma coisa, geralmente livros. Depois vou ao cinema. Procuro a sessão mais vazia de um filme que quero assistir. Cinema é uma arte que deve ser bem aproveitada. Quem gosta de cinema sabe disso. Algo me diz que no sétimo dia, quando Deus foi descansar e esfriar a cabeça, pelo trabalho de criar um mundo problemático, Ele pegou uma sessão vazia no cinema, comprou um combo grande de pipoca e refrigerante e depois aplaudiu Al Pacino ao final de Scarface.

Nunca vou entender o porquê

Nunca vou entender o porquê discutíamos tanto. Discutíamos por dias, ressuscitávamos discussões já resolvidas pra citá-las e assim continuarmos discutindo. Éramos bons nisso, mas nunca vou entender o porquê.
Ela, filha única, mimada, que fez um tour durante dois anos pela Europa e, após voltar à Brasília, morava num apartamento cedido pelo pai. Enquanto, eu, filho mais velho de quarto irmãos, morava sozinho desde os dezoito, trabalhava e pagava o aluguel de um pequena Kit e custeava um curso de administração.
Não sei como nos apaixonamos, isso nunca aconteceria, senão tivéssemos nos encontrado naquele barzinho, no qual ela fazia cover da Cássia Eller. Juro que nunca teria me apaixonado se ela não fosse tão talentosa. Depois nos encontramos em uma outra apresentação dela, depois do show conversamos sobre Cazuza, Renato, Biquíni, Kid, Paralamas, Capital, Titãs… Não teria me apaixonado, não fosse o excelente gosto musical. Também não teria me apaixonado, não fosse o beijo excelente e as noites pouco dormidas por causa do sexo intenso. Se na nossa primeira ida ao cinema, ela não tivesse me convidado pra ver um clássico (isso mesmo, ela me convidou, disse que eu dava rodeios demais). Assistimos perfume de mulher. Não fosse o excelente filme, não sei se estaríamos juntos hoje. Com certeza, eu não me apaixonaria, se depois de algumas insistências, ela não tivesse lido, amado e odiado Dean Moriarty em On The Road.
Mas eu não consigo entender o porquê discutimos tanto. Com certeza, ela não vai entender que o principal motivo de eu chegar atrasado pra buscá-la no aeroporto, é o congestionamento, e não o fato de eu ter acordado um pouco atrasado. Também não entenderá porque estou no meu carro e não no carro dela, como ela pediu. Porra! Eu odeio dirigir o carro dela.