Turrona

Ela é pequena e teimosa, do tipo turrona. Nem de humanas, nem de exatas. É de complicadas. De fácil irritabilidade, do tipo que bate o pé, faz birra, se recusa a falar, escutar, conversar e fecha a cara fazendo bico com toda a autoridade do mundo. Contra ela não há argumentos! Não dá o braço a torcer e nem admite estar errada. Está certa até quando erra. Só é fácil pra perder a paciência. Perde como se fosse um par de brincos pequenos, e depois de perder, não quer saber e muito menos a minha opinião sobre onde está, digo sobre a paciência, não os brincos. Os brincos ela sempre irá procurar, não sai de casa sem eles.

Não se cura um amor com outro amor

“Só esquece um amor com outro amor”, era isso que eu sempre ouvia dizer, então saía a procura de amores pela noite. Queria esquecê-la! Mas acho mesmo que estava era procurando-a. Procurando-a em cada beijo e em cada corpo que eu experimentava. Era uma procura em vão. A cada beijo eu descobria que ninguém beijava igual a ela, a cada noite com outra pessoa eu percebia que dificilmente eu teria noites como as que tive com ela. Algumas vezes encontrava seu perfume em outra moça. E quando sentia esse perfume minha noite acabava. Aquele perfume era Ela. Aquele perfume trazia de volta todas as lembranças dela. Naquele momento eu percebia que não se cura um amor com outro amor. O amor é como um vício e não se cura um vício com outro.

Futuro incerto

Vejo minha vida se encaminhando para um futuro que eu nem sei se quero. Não que esse futuro seja ruim, é que eu não me vejo e nem me reconheço MAIS nele. Recordo então de todas as ex-promessas-de-futuros que eu tivera. Alguns eu não quis e mudei, outros não deram certo e cheguei nesse presente que algum tempo foi um futuro que eu também não sei se queria. A vida me encaminhou até aqui. Eu me encaminhei até aqui. Sinto-me desnorteado. Perdido num deserto. Não sei mais se estou indo ou voltando, tudo é igual, avançar ou retroceder não faz diferença. Enquanto isso eu continuo caminhando. E o futuro se encaminhando.

Olhos castanhos

Sempre fui apaixonado por olhos castanhos, embora muitas pessoas os veem como olhos comuns, mas nunca fui parecido com a maioria das pessoas. É que olhos claros nunca me conquistaram, não iguais os castanhos, não que os olhos claros não sejam bonitos, são, mas é de uma beleza tão convencional que não me chamam a atenção. Já os castanhos… ah, os castanhos! Esses sempre me atraíram, e me atraíram pela diversidade de seus tons. Há os castanhos claros, que vez ou outra, ganham um tom escuro, ou os escuros, que vez ou outro ganham um tom claro. São olhos inquietos, mesmo sem nenhuma expressão no olhar. São fortes! Fortes como uma tempestade de areia, seja a força dela começando ou terminando, depende do tom.

Toda bagunça pode ser organizada

Você me aparece assim do nada, como quem não quer nada e aos poucos vai entrando nesta bagunça que é minha vida, e, se organizando nela e ao mesmo tempo organizando ela. Então eu te olho espantando, porque qualquer outra pessoa ficaria assustada com tremenda bagunça. Eu até tento explicar e digo que a última pessoa que entrou fez uma grande confusão, bagunçou demais e foi embora sem arrumar. E que eu, por descuido e desleixo fui empurrando a bagunça pra um canto e tirando da frente até que eu não sabia mais por onde começar a arrumar e deixei pra lá. E você vem dizendo, com esse sorriso largo, que toda bagunça pode ser organizada, como se estivéssemos falando da bagunça mais simples do mundo…

Não é justo

Não é justo você entrar e sair da minha vida a hora que quer. Você sabe o que sinto por você e abusa disso. Some por dias, semanas, meses e depois volta com esses grandes olhos castanhos, como se nada tivesse acontecido, como se tivesse se ausentado apenas por cinco minutos e começa a organizar e desorganizar o-que-quer-que-seja. E eu não sei o porquê te dou passe livre pra minha vida. Deve ser por culpa desse teu grande par de olhos castanhos, que sempre me diz mentiras tão sinceras com esse olhar, sem nada precisar falar, que eu não consigo duvidar.

A gente sempre ama quem vai

Eu disse “Desculpa! Eu te amo.” Depois me afastei. Virei às costas. Fui embora. É estranho, eu disse te amo e me afastei. Ela não disse nada e permanecia no lugar. Eu achei que quem ama não fosse embora. Me questionei. Eu fui embora tendo o que dizer, ela ficou sem nada falar. Eu a odiei por ficar e não dizer nada. Talvez porque quem vai, volta. E quem fica não pode voltar, apenas ir embora. Talvez seja por isso que a gente sempre ama quem vai e odeia quem fica.

Como o orgulho fala besteira quando se cala

Eu não estava ali, não psicologicamente. Eu não parava de pensar Nela e na ligação que ela me fez horas antes para falar exatamente um pouco mais que quase nada. Perguntou como eu estava e eu disse que estava bem. Menti. Refiz a pergunta e ela também disse que estava bem. Acredito que também tenha mentido. Depois procurou algumas palavras pra dizer e certamente já tinha se arrependido por ter ligado. Fiquei calado, apenas calado, e como o orgulho fala besteira quando se cala. Pra acabar a nossa tortura e o silêncio cortante eu disse que estava chegando ao trabalho. Nos despedimos expressando praticamente só o vazio do silêncio e esperando que o outro entendesse as palavras difíceis de ser ditas.

Volte

A geladeira assim como eu só esvaziou desde que você se foi. É que a minha vida está tão largada quanto eu nesse sofá velho da sala. O controle da TV eu perdi e a TV se encontra naquele mesmo canal de filmes que você gostava. E numa reprise do seu filme preferido eu entendi como aquela cena é mesmo triste, me vi nela. A cama continua do mesmo jeito, conservo aquela bagunça pra não esquecer seu cheiro, recuso-me a deitar nela sem você. Nem o gato eu deixo subir. Aliás, eu queria dizer que ele sente tua falta e pediu pra você voltar. Confesso que eu desejo o mesmo, mas só estou pedindo porque ele pediu. Senão quiser voltar por mim, volte por ele.