Ainda é cedo

Ela escuta e canta no volume máximo aquele CD da Legião Urbana. Aquele mesmo que era meu, mas que ela não me devolveu após o término. Quando pergunto sobre, ela sorri e responde: “Ele eu não devolvo, ele é presente”. Ela se auto presenteou com aquele CD. Eu posso até pega-lo de volta, mas o CD já faz parte dela. Tem decorada todas as músicas, falas e até os erros do Renato Russo. Canta junto com ele cada verso, erra, quando ele erra e engrossa a voz pra chegar ao mesmo tom. E quando escuta a nossa música, chora, e como chora, naquela versão de “Ainda é Cedo*” que dura quase dez minutos.

Ainda é Cedo* As quatro estações – ao vivo; disco 2; faixa 1.

O sexto sentido dela

Dizem que mulher tem sexto sentido, o dela funciona quando está me perdendo, quando estou me apaixonando por outra pessoa ou quando decido esquecê-la. Ela sabe que é meu ponto fraco e abusa disso. É nessa hora que meu telefone toca, eu atendo mesmo sabendo quem é, então ela me diz que está com saudades, que ainda me ama e com poucas palavras me ganha novamente. Talvez um dia eu não atenda, mas hoje não foi diferente…

Aquele irresistível sorriso canto de boca

E depois de uma conversa nostálgica, você me faz aquele sorriso irônico canto de boca, aquele mesmo sorriso, que sempre me desmontou de tal forma e, agora, entendo o porquê nunca consegui ganhar uma discussão contigo. E percebo que não mudou nada, pois quando elogio esse mesmo sorriso, você ainda olha para baixo, tímido, com um sorriso amarelo de quem nunca sabe o que fazer quando é elogiado. Sorrio! Então, você me encara com esse olhar à la Ryan Atwood, vejo teus olhos castanhos-esverdeados, que me fazem se arrepender amargamente por ter te deixado.

Você acredita em alma gêmea?

– Você acredita em alma gêmea? Ela me perguntou.
– Não! Eu disse de maneira rápida.
Ela me achou um pouco ríspido e logo retrucou: – Você me diz que é um romântico e não acredita em alma gêmea.
– Sou um romântico sensato. Eu falei.
– Sensato? Ela perguntou.
– Sim! Suponhamos que alma gêmea exista, seria muita pretensão que com bilhões de habitantes na Terra, a minha alma gêmea estivesse nascido no mesmo país que eu, e, seria uma pretensão maior ainda, que eu fosse conhecê-la. Eu não acredito que exista, mas se existe, é provável que a minha é chinesa, senão for, ela é fabricada lá, no mínimo.
– E no que você acredita então, senhor romântico? Ela perguntou com ironia.
– Acredito em pessoas que se esforçam, porque pessoas perfeitas não existem, todas têm defeitos, alguns incorrigíveis ou insuportáveis. Porque gostar de alguém é algo fácil, o difícil é continuar gostando depois de conhecê-la melhor. Pois quando nos apaixonamos é algo rápido, mas um dia a paixão acaba e, é nesse momento, que ela pode ou não se transformar em amor, depende de você; se permitir sentir ou não, se quiser se doar ou não.

Sorte nossa poder vê-la dançar

O corpo estava inquieto, assim como as luzes da boate piscando incessantemente. O rebolado dela era hipnotizador. Jogava o corpo pra um lado e o cabelo pro outro. As pessoas, em sua volta, olhavam, queriam apreciar aquele momento. Ela se agitava e meu coração palpitava. Meus olhos vidrados, admirados, extasiados. Era encantadora, sorria, dançava, olhava para os lados com um olhar perdido. Eu me perdia quando o olhar dela me encontrava. Sabia que estava sendo vista, não ligava, dançava sem se preocupar com nada. A música, os gritos, as luzes, a boate, tudo conspirava praquela perfeição. Ela dançava e tornava tudo ainda aquilo mais completo. Uma música acabou e outra começou. Sem descanso aos músculos ela continuava.

No sétimo dia, Deus foi ao cinema

Sou uma pessoa feliz, não digo totalmente feliz, porque como cantava Raul “ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez”. É que têm dias que acordo entediado e sentindo uma nostalgia poética de algo que eu não vivi. Ou talvez seja apenas alguma crise depressiva digna de “arianos”, mas nos dias que acordo assim preciso me distrair. E quando isso acontece, numa terça-feira chuvosa, o que temos pra fazer em Brasília? Acertou quem disse shopping ou cinema. Compro então alguma coisa, geralmente livros. Depois vou ao cinema. Procuro a sessão mais vazia de um filme que quero assistir. Cinema é uma arte que deve ser bem aproveitada. Quem gosta de cinema sabe disso. Algo me diz que no sétimo dia, quando Deus foi descansar e esfriar a cabeça, pelo trabalho de criar um mundo problemático, Ele pegou uma sessão vazia no cinema, comprou um combo grande de pipoca e refrigerante e depois aplaudiu Al Pacino ao final de Scarface.

Nunca vou entender o porquê

Nunca vou entender o porquê discutíamos tanto. Discutíamos por dias, ressuscitávamos discussões já resolvidas pra citá-las e assim continuarmos discutindo. Éramos bons nisso, mas nunca vou entender o porquê.
Ela, filha única, mimada, que fez um tour durante dois anos pela Europa e, após voltar à Brasília, morava num apartamento cedido pelo pai. Enquanto, eu, filho mais velho de quarto irmãos, morava sozinho desde os dezoito, trabalhava e pagava o aluguel de um pequena Kit e custeava um curso de administração.
Não sei como nos apaixonamos, isso nunca aconteceria, senão tivéssemos nos encontrado naquele barzinho, no qual ela fazia cover da Cássia Eller. Juro que nunca teria me apaixonado se ela não fosse tão talentosa. Depois nos encontramos em uma outra apresentação dela, depois do show conversamos sobre Cazuza, Renato, Biquíni, Kid, Paralamas, Capital, Titãs… Não teria me apaixonado, não fosse o excelente gosto musical. Também não teria me apaixonado, não fosse o beijo excelente e as noites pouco dormidas por causa do sexo intenso. Se na nossa primeira ida ao cinema, ela não tivesse me convidado pra ver um clássico (isso mesmo, ela me convidou, disse que eu dava rodeios demais). Assistimos perfume de mulher. Não fosse o excelente filme, não sei se estaríamos juntos hoje. Com certeza, eu não me apaixonaria, se depois de algumas insistências, ela não tivesse lido, amado e odiado Dean Moriarty em On The Road.
Mas eu não consigo entender o porquê discutimos tanto. Com certeza, ela não vai entender que o principal motivo de eu chegar atrasado pra buscá-la no aeroporto, é o congestionamento, e não o fato de eu ter acordado um pouco atrasado. Também não entenderá porque estou no meu carro e não no carro dela, como ela pediu. Porra! Eu odeio dirigir o carro dela.

A reencarnação morena de Helena

Há algo no jeito dela falar, sorrir e gesticular que a torna encantadora. Parece que todos os detalhes são milimetricamente calculados, tornando-os tão perfeitos, que se estivéssemos na Grécia antiga, poderíamos estar perante uma semideusa, filha de Afrodite, a deusa do amor e da beleza. Seria ela a reencarnação morena de Helena, a musa de gregos e troianos? É possível que ainda hoje tenha parentesco com algum deus, isso explica o universo conspirar para torná-la mais atraente. Seja o Sol, quando toca seu rosto realçando os tons dos seus olhos castanhos ou o brilho dos seus longos cabelos negros. Cabelos esses que o vento aprecia toca-los, sempre soprando-os com leveza. Enquanto, eu, sou sempre o cara que o sol atrapalha ou incomoda, aquele que o vento joga poeira nos olhos. Seria inveja? Inveja porque sou eu que estou com ela, é a minha mão que ela segura e são meus lábios que a boca dela toca.