Olhos que falam

Enquanto os amigos conversam, ele fica em silêncio e me encara. Me encara como se soubesse o que eu estou pensando. Será que sabe?! Desvia o olhar naquele momento que eu retribuo. Mas antes de desviar, fala com os meus olhos por longos décimos de segundos. E como aqueles olhos castanhos escuros sabem se comunicar! Talvez, se fossem claros não se comunicariam de forma tão intensa assim. Continuo o observando, enquanto ele leva o copo de cerveja à boca, dá um belo de um gole e depois volta a cerveja à mesa. É do tipo que sabe beber! Diz algo gesticulando aos amigos, com gestos rápidos. Típico de quem quer ser visto. Volta a me olhar, então é minha vez de desviar o olhar. Uso, então, gestos pra me comunicar. Levo com a mão direita o cabelo pra trás da orelha, abaixando levemente a cabeça e sorrindo. Acabo me entregando. Ele me encara novamente. Retribuo. Nossos olhos conversam por alguns segundos, até que ele vem ao meu encontro.

Anúncios

Desculpas de antemão

Antes de começarmos isso, eu quero te pedir desculpas de antemão. Acredite, o que mais quero é te ver feliz. Mas sei que errarei várias vezes contigo. É que sou tão complicado e imperfeito, que errarei por insegurança minha. Pois a acho tão perfeita, linda, inteligente, atraente e divertida, que acabarei me enrolando.
Peço desculpas também pelo ciúme bobo, que pode ocorrer algumas vezes, mas é só as outras pessoas entenderem que és minha. Não, eu não sou tão possessivo assim, sou apenas um pouco egoísta quando o assunto é você. E se te chamo de minha pequena, é por achar que o pequena soa melhor acompanhado do “minha”.
Peço que não se assuste quando me pegar fazendo planos ou me ver escolhendo em qual praia iremos casar num domingo de manhã. Também não ache que seja prematuro eu escolher o nome do nosso casal de filhos. É que sou assim, intenso demais e quando entro num relacionamento, espero que seja sem prazo de validade.

Distâncias

Não sei conviver com distância, nem física, nem emocional. Sou intenso demais e por mais que eu ame nossas longas conversas ao celular, nenhuma tecnologia vai me fazer tocar teus lábios, sentir teu cheiro, o macio dos seus cabelos ou me deixar aceitar um trago do seu cigarro pós-sexo virtual.
Ainda vivemos nesta irônica sintonia diferente, quando estamos longe, enfrentamos uma distância física; quando levantamos vôo e nos encontramos, ficamos longe emocionalmente e a pequena distância física que nos separa, parece ser um grande precipício.
Nós fazemos bem um ao outro quando estamos longe, porém se nos distanciarmos demais há uma força que nos puxa de volta, mas é só chegarmos perto novamente, que começam as faíscas, e quase sempre, uma tragédia emocional.

Será complicado

Assim como você, eu estou vendo os filmes que me indicou, lendo os livros que me emprestou e ouvindo aquela banda que você me mostrou, e digo, que isso vai acabar sendo um tremendo problema para nós dois. Será complicado, quando eu decorar os diálogos do seu filme preferido, e ao assisti-lo, você lembrar de mim. Será complicado, quando aquele livro que me indicou, se tornar uma espécie de bíblia pra mim ou quando o meu escritor favorito estiver nas legendas de suas fotos no Instagram. Será extremamente complicado, quando aquela banda que você me apresentou se tornar a minha banda favorita, e aquela música que ouvi primeiro, e depois te enviei perguntando se você já tinha escutado, se tornar a nossa música.
E quando, depois de tanto tempo, nós nos esbarrarmos num show deles e nossa música tocar, mas estivermos compartilhando com outra pessoa ao lado, será extremamente difícil e complicado!
Então, se você não tem certeza se vai permanecer muito tempo em minha vida, me faça o favor de me indicar livros ruins, filmes péssimos e músicas piores. É mais fácil esquecer uma pessoa pela qual não temos boas recordações.

 

Não vá, fica!

Eu seguro o celular em mãos, esperando que ele vibre ou tenha alguma notificação sua. Torço que apareça seu nome numa chamada fora de hora. Espero em vão. Eu te afastei, te afastei por medo de ter você perto. Conheço-me bem e sei que não seria bom o suficiente, que acabaria te decepcionando cedo ou tarde. Porém, quando pedi pra se afastar e me esquecer, eu implorava que entendesse o oposto. É que apesar de parecer forte, eu dizia em silêncio: “Não vá, fica! Eu não sou forte e sentirei muita sua falta.” Igual estou sentindo agora.

Relacionamentos não são uma ciência exata

Relacionamentos não são uma ciência exata “Use a fórmula, se você não errar os cálculos, dá certo”. Não! Os relacionamentos não são assim. Cada relacionamento é diferente, são como uma aula de gramática, cheia de regras e exceções, e cada relacionamento tem uma regra e/ou exceção diferente. Relacionamentos são palavras parecidas com sentidos diferentes. Relacionamentos são como o uso da vírgula, e cada escritor tem uma opinião diferente quanto ao seu uso, mas, quando num relacionamento as pessoas têm uma opinião diferente quanto ao uso da vírgula, elas preferem o ponto final.

Notas sobre ele

Quando o vi a primeira vez, ele não me chamou atenção em nada, não usa roupas coloridas ou extravagantes, não tem piercings, brincos ou tatuagens. O cabelo não é nada chamativo, curto, numa desorganização simétrica, entende? A princípio é tímido, mas somente a princípio. Na verdade, ele é inquieto, sempre que fala gesticula. Cheio de expressões faciais. Mas não sabe como reagir a um elogio, desconversa e sorri meio sem jeito.
Tem um olhar expressivo, que quando te encara, é impossível não ficar desconcertada. É divertido e não gosta de ver ninguém triste. Quando não está sorrindo, está tentando fazer alguém sorrir. Dificilmente chora, quando chora, faz escondido, quer dar a impressão de ser forte.
Ironia e sarcasmo são seus melhores amigos, usa como autodefesa. Não o culpe, é de forma automática.

Em nada ela é simples

Eu te amo! E te amo, porque eu conheço seus defeitos e pouco me importa se eles são incompatíveis com os meus. Mas, eu também poderia dizer que é por causa da simetria perfeita do seu nariz, das curvas no seu corpo, das pintinhas espalhadas pelo busto, dos olhos castanho-esverdeados, desse teu olhar forte e do sorriso cativante.
Você é extremamente linda, mas sempre discorda quando eu digo, fica tímida e em silêncio, e depois sem convicção diz: “eu não sou linda”.
Ela é complicada e sensível, mas tem medo de sentir, é contida. Uma falante de entrelinhas. Mimada e complicada, com uma personalidade forte, que me enlouquece. De um orgulho desproporcional ao seu tamanho e de uma teimosia maior ainda.
É extremamente irredutível, pode até assumir que não estava certa, mas nunca vai dizer que estava errada. Discutir com ela não é simples. Aliás, em nada ela é simples.
Se nela viesse um rótulo, estaria em destaque: “Efeito colateral: Pode causar grandes transtornos psicológicos.” e nada de: “Cuidado: Frágil!”, apesar do tamanho aparentar.

Ainda é cedo

Ela escuta e canta no volume máximo aquele CD da Legião Urbana. Aquele mesmo que era meu, mas que ela não me devolveu após o término. Quando pergunto sobre, ela sorri e responde: “Ele eu não devolvo, ele é presente”. Ela se auto presenteou com aquele CD. Eu posso até pega-lo de volta, mas o CD já faz parte dela. Tem decorada todas as músicas, falas e até os erros do Renato Russo. Canta junto com ele cada verso, erra, quando ele erra e engrossa a voz pra chegar ao mesmo tom. E quando escuta a nossa música, chora, e como chora, naquela versão de “Ainda é Cedo*” que dura quase dez minutos.

Ainda é Cedo* As quatro estações – ao vivo; disco 2; faixa 1.