A gente sempre ama quem vai

Eu disse “Desculpa! Eu te amo.” Depois me afastei. Virei às costas. Fui embora. É estranho, eu disse te amo e me afastei. Ela não disse nada e permanecia no lugar. Eu achei que quem ama não fosse embora. Me questionei. Eu fui embora tendo o que dizer, ela ficou sem nada falar. Eu a odiei por ficar e não dizer nada. Talvez porque quem vai, volta. E quem fica não pode voltar, apenas ir embora. Talvez seja por isso que a gente sempre ama quem vai e odeia quem fica.

Como o orgulho fala besteira quando se cala

Eu não estava ali, não psicologicamente. Eu não parava de pensar Nela e na ligação que ela me fez horas antes para falar exatamente um pouco mais que quase nada. Perguntou como eu estava e eu disse que estava bem. Menti. Refiz a pergunta e ela também disse que estava bem. Acredito que também tenha mentido. Depois procurou algumas palavras pra dizer e certamente já tinha se arrependido por ter ligado. Fiquei calado, apenas calado, e como o orgulho fala besteira quando se cala. Pra acabar a nossa tortura e o silêncio cortante eu disse que estava chegando ao trabalho. Nos despedimos expressando praticamente só o vazio do silêncio e esperando que o outro entendesse as palavras difíceis de ser ditas.

Volte

A geladeira assim como eu só esvaziou desde que você se foi. É que a minha vida está tão largada quanto eu nesse sofá velho da sala. O controle da TV eu perdi e a TV se encontra naquele mesmo canal de filmes que você gostava. E numa reprise do seu filme preferido eu entendi como aquela cena é mesmo triste, me vi nela. A cama continua do mesmo jeito, conservo aquela bagunça pra não esquecer seu cheiro, recuso-me a deitar nela sem você. Nem o gato eu deixo subir. Aliás, eu queria dizer que ele sente tua falta e pediu pra você voltar. Confesso que eu desejo o mesmo, mas só estou pedindo porque ele pediu. Senão quiser voltar por mim, volte por ele.

Bipolar é eufemismo

Bipolar é eufemismo, ela é multipolar. Chora. Ri. Fala. Grita. Cala. Quase tudo ao mesmo tempo, quase tudo sem parar. Num ímpeto de raiva, abre a porta e me manda embora. Mas logo se arrepende e me liga, antes mesmo de no elevador eu entrar ou a rua atravessar. Nem dá tempo de a saudade apertar. Usa a desculpa de que algo eu esqueci, e assim diz pr’eu voltar: “Tenho algo a te entregar”, e Ela se entrega.

Não se perde o que nunca teve

“Não se perde o que nunca teve”, foi isso que eu disse quando disseram que eu a perdi. Pra perder algo ele tem que ter nos pertencido em algum momento, e, ela nunca me pertenceu, nem quanto esteve em meus braços ela era minha. Ela é dela, só dela e de suas carências tantas vezes satisfeitas por mim, que em boa parte do tempo, fui totalmente dela.

Tem hora que o amor atrapalha

Depois de um tempo separado eles reatam o namoro, e, após a primeira noite de sexo surgem algumas dúvidas:
– Posso te fazer uma pergunta? Ela diz deitada com a cabeça encostada no peito dele.
– Qual?
– Com quantas mulheres cê ficou desde que terminamos?
– Por que cê quer saber disso?
– Só por curiosidade.
– Faz diferença?
– Não, não faz, mas eu quero saber. Diz ela sentando na cama enquanto ele continua deitado.
– Depois de você, eu fiz muitas coisas das quais não me orgulho.
– Foram tantas assim?
– Algumas.
– E por que você não se orgulha? Não foi bom?
– Não é isso.
– Então foi bom?
– E se tiver sido bom?
– Eu só quero saber.
Ele também se levanta e senta de costas pra ela. – Acontecia porque eu queria preencher espaço, ocupar a cabeça, não lembrar de você, te esquecer…
– Pelo visto você não esqueceu. Ela diz virando-se e olhando para ele.
– E você? Ele pergunta.
– Eu o quê?
– Com quantos?
– Com quantos eu dormi?
– É.
– Você tinha razão, não faz diferença. Ela diz esquivando-se.
– Mas eu também quero saber.
– Pra ficar me julgando?
– Não é o que você está fazendo agora? Ele pergunta com rapidez.
– Não… talvez!
– Só me diga quando foi a primeira vez depois que terminamos.
– Melhor não.
– Um mês depois?
Ela balança a cabeça negativamente.
– Menos? Ele pergunta incrédulo.
Ela consente com a cabeça e afirma dizendo: – Eu queria te esquecer.
– Foi quanto tempo depois?
– É melhor eu não falar.
– Quanto tempo? Ele pergunta novamente.
– Nove dias.
– Por isso você não me ligou. Ele diz levantando da cama.
– Não tem nada a ver. Eu não te liguei porque você não me procurou.
– Eu não te liguei porque você mandou eu não te procurar, me excluiu e me bloqueou das redes sociais.
– Eu estava com raiva.
– E a raiva não passou?
– Sinceramente eu acho que ela tá voltando.
– Então é melhor mudar de assunto. Diz ele sentando na cama novamente e indo pra perto dela.
Ela então se levanta e diz:
– Sabe? Têm horas que te odeio tanto, e por vezes peço pra que esse ódio seja pra sempre. Mas eu não consigo, eu fico te odiando e pensando em você, e quando percebo eu estou chorando, sentindo sua falta, te querendo de volta. Ela volta à cama e senta ao lado dele e pergunta: – Você já sentiu o que sente por mim por outra pessoa?
– Da forma que eu sinto por você, nunca. Isso é um problema, às vezes. Ele diz deitando-se.
– Por que um problema? Ela o encara.
– De você eu sinto ciúme mesmo quando estamos separados, me preocupo quando sei ou sinto que você não está bem. Mesmo sem estarmos nos falando, têm horas que quero te ligar apenas pra ouvir sua voz, esquecer os problemas, conversar sobre qualquer coisa…
Ambos fazem silêncio. Depois ele continua:
– Sabe?! Eu fiquei com outras pessoas, mas com elas eu não queria estar presente vinte e quatro horas. Por vezes, eu inventava uma ou outra desculpa pra não ter que sair ou conversar em alguns momentos. Quando discutíamos ou terminávamos realmente era um alívio. Eu fiquei até feliz quando algumas delas começaram a namorar ou me traiam. Mas com você é diferente. E nunca, nunca senti o que sinto por você por outro alguém, acho até impossível isso acontecer.
– Tem hora que o amor atrapalha. Ela diz deitando e encostando a cabeça novamente no peito dele.
– Como assim?
– Eu também sinto isso por você, então, crio expectativas e espero mais. Me chateio mais contigo do que com qualquer outra pessoa, por coisas pelas quais eu não iria discutir e muito menos me importar, com você tem esse peso a mais, às vezes, qualquer pouco é muito, em outras, qualquer muito é pouco.