Nunca vou entender o porquê

Nunca vou entender o porquê discutíamos tanto. Discutíamos por dias, ressuscitávamos discussões já resolvidas pra citá-las e assim continuarmos discutindo. Éramos bons nisso, mas nunca vou entender o porquê.
Ela, filha única, mimada, que fez um tour durante dois anos pela Europa e, após voltar à Brasília, morava num apartamento cedido pelo pai. Enquanto, eu, filho mais velho de quarto irmãos, morava sozinho desde os dezoito, trabalhava e pagava o aluguel de um pequena Kit e custeava um curso de administração.
Não sei como nos apaixonamos, isso nunca aconteceria, senão tivéssemos nos encontrado naquele barzinho, no qual ela fazia cover da Cássia Eller. Juro que nunca teria me apaixonado se ela não fosse tão talentosa. Depois nos encontramos em uma outra apresentação dela, depois do show conversamos sobre Cazuza, Renato, Biquíni, Kid, Paralamas, Capital, Titãs… Não teria me apaixonado, não fosse o excelente gosto musical. Também não teria me apaixonado, não fosse o beijo excelente e as noites pouco dormidas por causa do sexo intenso. Se na nossa primeira ida ao cinema, ela não tivesse me convidado pra ver um clássico (isso mesmo, ela me convidou, disse que eu dava rodeios demais). Assistimos perfume de mulher. Não fosse o excelente filme, não sei se estaríamos juntos hoje. Com certeza, eu não me apaixonaria, se depois de algumas insistências, ela não tivesse lido, amado e odiado Dean Moriarty em On The Road.
Mas eu não consigo entender o porquê discutimos tanto. Com certeza, ela não vai entender que o principal motivo de eu chegar atrasado pra buscá-la no aeroporto, é o congestionamento, e não o fato de eu ter acordado um pouco atrasado. Também não entenderá porque estou no meu carro e não no carro dela, como ela pediu. Porra! Eu odeio dirigir o carro dela.

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Reencontro

Hoje o reencontrei, depois de mais de quatro anos, foi estranho, nostálgico e muito difícil vê-lo novamente. De longe, eu o observava, enquanto discutia comigo mesma se devia ir ou não falar com ele. Fisicamente não mudou tanto, mas essa mesma aparência revelava que ele não era mais o mesmo. Pouco envelheceu, mas seu rosto mostrava um amadurecimento, sem perder aquela expressão jovial. Conversava com um amigo, numa conversa descontraída, cheia de sorrisos e gestos. Uma vez eu lhe disse: “Se você perder os braços, perde também a fala”. Gesticulando ele me respondeu: “Não há como falar de outra forma”. Então, decidida fui ao seu encontro e, enquanto, percorria esse curto e demorado caminho, vejo uma criança correndo e gritando seu nome. Ele rapidamente se agacha e a abraça. Uma cena que imaginei mil vezes acontecer, mas não dessa forma. Sempre imaginei que essa criança seria nossa filha. Logo depois, ela puxa-o pelo braço, querendo mostrar algo. Quando ele olha pra cima, me nota e vem ao meu encontro, com um sorriso assustado e espontâneo. Trazendo-a consigo, ele sorri e diz: “Oi”. Eu perplexa e com o coração palpitando digo: “Olá”. Ela, pequena, linda e toda sorrisos, diz: “Oi, tudo bem?”. E antes que eu possa fugir ela pergunta: “Ela é sua amiga, tio?”, pergunta a ele.

Talvez faltassem alguns requisitos

– Você ainda pensa nela?
– Sim, mas raramente.
– E sente falta?
– Também. Ela é uma pessoa divertida, inteligente, instigante, e sempre, sempre pensando de forma positiva, parece nunca acordar triste, sem contar que é linda e o sexo…
– Entendi. Interrompeu.
– Formávamos um belo casal, mas não éramos casáveis.
– Casáveis?
– É, acredito que algumas pessoas não são casáveis.
Ela fez silêncio, enquanto ele prosseguiu:
– O casamento sofreu muito com o passar do tempo, antigamente, casar era quase que um negócio: A família negociava a filha pra se tornar esposa de alguém, tinha o dote, o dinheiro e infelizmente não podiam separar, porque a época não permitia o desquite.
– E hoje?
– Calma! Um tempo depois, o casamento envolveu amor, curiosamente, bem na época que começaram as traduções em grande escala de Romeu e Julieta. Nessa época, as mulheres batiam o pé, fugiam com seus amantes, queriam casar por amor, serem felizes, terem filhos e etc. Esses casamentos davam mais certos que os atuais.
Ela concordou com a cabeça. 
– Mas hoje, os casamentos viraram negócios, não como antigamente, acho que piores. A maioria das pessoas esqueceram o amor, casam por requisitos: “Ele é inteligente, tem um bom emprego e estabilidade financeira”, “Gosto dele, não o amo, mas dizem que aprendemos a amar, né?”. Pouco tempo depois eles se separam e procuram outros, com outros requisitos, pra se adaptarem as suas novas necessidades. Casamento hoje é uma espécie de emprego, você fica um tempo e se você não gostar ou não for bem-sucedido, você procura outro.
Ela refletiu um pouco e perguntou:
– E por que vocês não são casáveis?
– Talvez faltassem alguns requisitos.
 

O que resta é sumir

Ela, amiga de ambos, o ligou:
– Como você está?
– Da parte de quem?
– Da minha parte, ora.
– Estou mal.
– E se fosse da parte dela?
– Poderia dizer que estou bem.
– Pra quê isso?
– Desculpa! Mas eu não posso fingir que está tudo bem e agir como se eu não sentisse nada.
– Mas você não pode ser escravo dos seus sentimentos.
– Então, serei refém do que finjo não sentir esperando que meus sentimentos mudem?
– Não! Mas se distanciando, o que você quer? Não percebe que assim você a ajuda a te esquecer?!.
– Tive momentos demais junto dela pra fazer com que ela se lembre de mim sem que me veja.
– Então, está se distanciando pra fazer falta?
– Não, estou me distanciando pra não fazer mais nada.

Decidiu correr; precisava pensar

Amarrou o cadarço do tênis esquerdo e depois o do direito. Conferiu se estavam firmes. Levantou, desceu as escadas do prédio em que morava enquanto configurava o aplicativo de corrida no celular e selecionava uma playlist no mesmo.
Mais uma vez os pensamentos estavam desorganizados na mente, mais uma vez necessitava correr e reorganiza-los. A corrida sempre fora um refúgio. As músicas selecionadas sempre foram um ponto de equilíbrio emocional.
Há tempos não corria, embora fosse um dos seus esportes favorito. Começou com um trote bem leve. Ele considerava os minutos iniciais os piores momentos da corrida. São quando os músculos saem da inercia em busca de um ritmo apropriado. Ele não estava preocupado com o tempo, apenas queria correr e tentar manter quase o mesmo ritmo em cada quilômetro. Apesar da falta de preparo físico era um corredor experiente, aos poucos conseguiu encontrar um ritmo confortável entre as passadas.
Ele corria pra organizar os pensamentos e pensar, embora quando estivesse correndo parecia não pensar em, sua mente relaxava e os pensamentos se organizavam. Se perguntou porque tinha ficado tantos meses sem correr. Era sempre assim que acontecia; voltava a correr, ficava por um tempo, mas aos poucos era engolido e puxado pela rotina e o comodismo.
Sentia os músculos cansarem, as pernas ficarem pesadas, mas conseguia continuar. A música tocava alto nos fones de ouvidos. Vez ou outra cantava alguns trechos, atento em não deixar o ritmo cair. Sentia-se bem. Sentia a endorfina.
Voltou ao apartamento. Estava extremamente suado, a respiração ofegante e já sentia as dores do esforço físico nas pernas. Pegou uma garrafa de água na geladeira e bebeu por completo. Descansou mais um pouco antes de ir pro banho. A água caía sobre ele trazendo uma enorme sensação de prazer.
Acordara sentindo as dores musculares da corrida no dia anterior. Permaneceu deitado. Estava exausto, porém satisfeito. Os pensamentos continuavam em ordem.

Então, ela apareceu…

Nós vamos mudando aos poucos, até nos tornarmos totalmente estranhos para nós mesmos.
Até alguns meses atrás, eu era um insensível, daqueles que fugiam de relacionamentos por conta de um péssimo histórico. Eu discursava contra amor e qualquer coisa relacionada a ele. Eu amava o casual. Noites casuais, pessoas casuais, camas casuais…
Eu era do tipo que saía, sorrateiramente, no meio da noite. Andando na ponta dos dedos, apenas pra não dizer aquelas mentiras de praxes, sobre querer repetir a noite.
Eu evitava relacionamentos ou qualquer coisa que parecesse ou pudesse se tornar um. Algumas pessoas tentaram, foram persuasivas e persistentes. E quando eu me tocava estava no quinto encontro ou com o fim de semana programado, e sem perceber, eu fugia. Deixava o telefone tocar. Demorava pra responder uma mensagem. Dava aquelas desculpas com mentiras sinceras de quem não quer compromisso.
Às vezes, eu não precisava de desculpas, elas me encontravam acompanhado, ou num barzinho, naquele dia que eu disse que ficaria em casa. Fugia delas de forma consciente, inconsciente ou com uma forma de olhos mais bonitos.
Sempre mostrei de início que não queria me apegar, mesmo assim é inevitável o sofrimento de alguém. Não é você, sou eu. E a vida foi seguindo.
Eu frequentava boates e barzinhos apenas pelo prazer da conversa ou do ambiente. Passava a noite entre conversas e goles de uísque puro. Sorria, discordava, acenava ao garçom e então mais uma noite terminava.
Eu estava acomodado com a vida de solteiro. Sem essa necessidade de ter alguém. Eu me bastava. Eu me sentia bem. Já não era mais o Thomas da Gabi do Direito e nem da Manu de Psicologia. Era apenas o Thomas.
Então, ela apareceu, não foi em nenhum dia excepcional ou atípico, era um dia comum, desses que nem o clima mostra que algo diferente está prestes a acontecer. E com uma conversa simples e despretensiosa, nós trocamos sorrisos, dividimos gostos em comum e repulsas também, discordando em outros pontos. Os gostos em comum se tornaram atrativos para futuras conversas. As trocas de filmes, livros e músicas começaram. E com o jeito meio tímido, meio tô entrando, ela se encaixou nos meus horários e eu nos dela.
Meu discurso tinha mudado, eu que abominava relacionamentos me encontrava num. Torcendo que fosse diferente.

Inquieta

A música tocava e ela se agitava. O copo na mão balançava junto com o corpo. Deu mais um gole na cerveja. Sentava. Levantava. Gesticulava. Cantava. Levava o copo à boca com delicadeza. Tudo em perfeita sintonia. Cheia de sorrisos fáceis, que a cada vez que se abria hipnotizava mais um. Pediu ao garçom uma dose de Uísque. Talvez pra combinar com a estampa Jack Daniels da camisa que vestia. Usava um short jeans curto que terminava onde começava uma tatuagem. Uma linda tatuagem em volta da coxa esquerda que atraia atenção de todos os olhares. Instigante. Chamativa. Provocante. Deu um gole no uísque. Não tinha medo de se mostrar, nem se interessava pelo que os outros falavam ou pensavam a seu respeito. Fazia o que dava na telha. Fazia o que tinha vontade. Como eu a desejava. Dentre todas as mulheres das quais eu desconhecia o nome, aquele era a que me interessava.

Tem hora que o amor atrapalha

Depois de um tempo separado eles reatam o namoro, e, após a primeira noite de sexo surgem algumas dúvidas:
– Posso te fazer uma pergunta? Ela diz deitada com a cabeça encostada no peito dele.
– Qual?
– Com quantas mulheres cê ficou desde que terminamos?
– Por que cê quer saber disso?
– Só por curiosidade.
– Faz diferença?
– Não, não faz, mas eu quero saber. Diz ela sentando na cama enquanto ele continua deitado.
– Depois de você, eu fiz muitas coisas das quais não me orgulho.
– Foram tantas assim?
– Algumas.
– E por que você não se orgulha? Não foi bom?
– Não é isso.
– Então foi bom?
– E se tiver sido bom?
– Eu só quero saber.
Ele também se levanta e senta de costas pra ela. – Acontecia porque eu queria preencher espaço, ocupar a cabeça, não lembrar de você, te esquecer…
– Pelo visto você não esqueceu. Ela diz virando-se e olhando para ele.
– E você? Ele pergunta.
– Eu o quê?
– Com quantos?
– Com quantos eu dormi?
– É.
– Você tinha razão, não faz diferença. Ela diz esquivando-se.
– Mas eu também quero saber.
– Pra ficar me julgando?
– Não é o que você está fazendo agora? Ele pergunta com rapidez.
– Não… talvez!
– Só me diga quando foi a primeira vez depois que terminamos.
– Melhor não.
– Um mês depois?
Ela balança a cabeça negativamente.
– Menos? Ele pergunta incrédulo.
Ela consente com a cabeça e afirma dizendo: – Eu queria te esquecer.
– Foi quanto tempo depois?
– É melhor eu não falar.
– Quanto tempo? Ele pergunta novamente.
– Nove dias.
– Por isso você não me ligou. Ele diz levantando da cama.
– Não tem nada a ver. Eu não te liguei porque você não me procurou.
– Eu não te liguei porque você mandou eu não te procurar, me excluiu e me bloqueou das redes sociais.
– Eu estava com raiva.
– E a raiva não passou?
– Sinceramente eu acho que ela tá voltando.
– Então é melhor mudar de assunto. Diz ele sentando na cama novamente e indo pra perto dela.
Ela então se levanta e diz:
– Sabe? Têm horas que te odeio tanto, e por vezes peço pra que esse ódio seja pra sempre. Mas eu não consigo, eu fico te odiando e pensando em você, e quando percebo eu estou chorando, sentindo sua falta, te querendo de volta. Ela volta à cama e senta ao lado dele e pergunta: – Você já sentiu o que sente por mim por outra pessoa?
– Da forma que eu sinto por você, nunca. Isso é um problema, às vezes. Ele diz deitando-se.
– Por que um problema? Ela o encara.
– De você eu sinto ciúme mesmo quando estamos separados, me preocupo quando sei ou sinto que você não está bem. Mesmo sem estarmos nos falando, têm horas que quero te ligar apenas pra ouvir sua voz, esquecer os problemas, conversar sobre qualquer coisa…
Ambos fazem silêncio. Depois ele continua:
– Sabe?! Eu fiquei com outras pessoas, mas com elas eu não queria estar presente vinte e quatro horas. Por vezes, eu inventava uma ou outra desculpa pra não ter que sair ou conversar em alguns momentos. Quando discutíamos ou terminávamos realmente era um alívio. Eu fiquei até feliz quando algumas delas começaram a namorar ou me traiam. Mas com você é diferente. E nunca, nunca senti o que sinto por você por outro alguém, acho até impossível isso acontecer.
– Tem hora que o amor atrapalha. Ela diz deitando e encostando a cabeça novamente no peito dele.
– Como assim?
– Eu também sinto isso por você, então, crio expectativas e espero mais. Me chateio mais contigo do que com qualquer outra pessoa, por coisas pelas quais eu não iria discutir e muito menos me importar, com você tem esse peso a mais, às vezes, qualquer pouco é muito, em outras, qualquer muito é pouco.

Ah, o Tempo!

Os amigos estavam sempre dizendo “Só o tempo vai te fazer melhorar”, “Nenhuma palavra que eu disser vai amenizar essa dor, apenas o tempo”. O tempo! O tempo! O tempo! Era a única coisa que ela ouvia. E o tempo não curava, apenas piorava. “Quanto tempo, esse tempo vai durar, até que eu me sinta melhor?” Ela se perguntava. “O Tempo não ameniza nada” ela dizia. Ela achava aquela dor insuportável. Olhava o celular a cada dois minutos, ansiosa por uma mensagem, uma ligação ou alguma notícia de uma pessoa que não estava nem aí pro seu sofrimento. As horas se arrastavam, então ela dormia. Dormia pra não pensar nele. Dormia querendo acordar de um pesadelo. Os olhos estavam sempre fundos de tanto chorar. Parecia que o mundo inteiro era feliz, menos ela. Hoje, depois de algum tempo, ela olha pro passado e com um sorriso no rosto pergunta “Como eu pude ser aquela pessoa patética?”. Caramba! Como o tempo ajudou. Não lembra exatamente quando tudo mudou, mas não foi de uma hora pra outra. Lembra que um dia acordou, abriu os olhos e não teve aquela vontade de dormir novamente. Levantou, tomou o café, arrumou a bolsa e quando estava fechando a porta levou a mão ao cabelo e pensou “Caramba, esquecendo algo, mas não sei o que.” Ela esqueceu de sofrer por alguém que não valia a pena.