Decidiu correr; precisava pensar

Amarrou o cadarço do tênis esquerdo e depois o do direito. Conferiu se estavam firmes. Levantou, desceu as escadas do prédio em que morava enquanto configurava o aplicativo de corrida no celular e selecionava uma playlist no mesmo.
Mais uma vez os pensamentos estavam desorganizados na mente, mais uma vez necessitava correr e reorganiza-los. A corrida sempre fora um refúgio. As músicas selecionadas sempre foram um ponto de equilíbrio emocional.
Há tempos não corria, embora fosse um dos seus esportes favorito. Começou com um trote bem leve. Ele considerava os minutos iniciais os piores momentos da corrida. São quando os músculos saem da inercia em busca de um ritmo apropriado. Ele não estava preocupado com o tempo, apenas queria correr e tentar manter quase o mesmo ritmo em cada quilômetro. Apesar da falta de preparo físico era um corredor experiente, aos poucos conseguiu encontrar um ritmo confortável entre as passadas.
Ele corria pra organizar os pensamentos e pensar, embora quando estivesse correndo parecia não pensar em, sua mente relaxava e os pensamentos se organizavam. Se perguntou porque tinha ficado tantos meses sem correr. Era sempre assim que acontecia; voltava a correr, ficava por um tempo, mas aos poucos era engolido e puxado pela rotina e o comodismo.
Sentia os músculos cansarem, as pernas ficarem pesadas, mas conseguia continuar. A música tocava alto nos fones de ouvidos. Vez ou outra cantava alguns trechos, atento em não deixar o ritmo cair. Sentia-se bem. Sentia a endorfina.
Voltou ao apartamento. Estava extremamente suado, a respiração ofegante e já sentia as dores do esforço físico nas pernas. Pegou uma garrafa de água na geladeira e bebeu por completo. Descansou mais um pouco antes de ir pro banho. A água caía sobre ele trazendo uma enorme sensação de prazer.
Acordara sentindo as dores musculares da corrida no dia anterior. Permaneceu deitado. Estava exausto, porém satisfeito. Os pensamentos continuavam em ordem.

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Então, ela apareceu…

Nós vamos mudando aos poucos, até nos tornarmos totalmente estranhos para nós mesmos.
Até alguns meses atrás, eu era um insensível, daqueles que fugiam de relacionamentos por conta de um péssimo histórico. Eu discursava contra amor e qualquer coisa relacionada a ele. Eu amava o casual. Noites casuais, pessoas casuais, camas casuais…
Eu era do tipo que saía, sorrateiramente, no meio da noite. Andando na ponta dos dedos, apenas pra não dizer aquelas mentiras de praxes, sobre querer repetir a noite.
Eu evitava relacionamentos ou qualquer coisa que parecesse ou pudesse se tornar um. Algumas pessoas tentaram, foram persuasivas e persistentes. E quando eu me tocava estava no quinto encontro ou com o fim de semana programado, e sem perceber, eu fugia. Deixava o telefone tocar. Demorava pra responder uma mensagem. Dava aquelas desculpas com mentiras sinceras de quem não quer compromisso.
Às vezes, eu não precisava de desculpas, elas me encontravam acompanhado, ou num barzinho, naquele dia que eu disse que ficaria em casa. Fugia delas de forma consciente, inconsciente ou com uma forma de olhos mais bonitos.
Sempre mostrei de início que não queria me apegar, mesmo assim é inevitável o sofrimento de alguém. Não é você, sou eu. E a vida foi seguindo.
Eu frequentava boates e barzinhos apenas pelo prazer da conversa ou do ambiente. Passava a noite entre conversas e goles de uísque puro. Sorria, discordava, acenava ao garçom e então mais uma noite terminava.
Eu estava acomodado com a vida de solteiro. Sem essa necessidade de ter alguém. Eu me bastava. Eu me sentia bem. Já não era mais o Thomas da Gabi do Direito e nem da Manu de Psicologia. Era apenas o Thomas.
Então, ela apareceu, não foi em nenhum dia excepcional ou atípico, era um dia comum, desses que nem o clima mostra que algo diferente está prestes a acontecer. E com uma conversa simples e despretensiosa, nós trocamos sorrisos, dividimos gostos em comum e repulsas também, discordando em outros pontos. Os gostos em comum se tornaram atrativos para futuras conversas. As trocas de filmes, livros e músicas começaram. E com o jeito meio tímido, meio tô entrando, ela se encaixou nos meus horários e eu nos dela.
Meu discurso tinha mudado, eu que abominava relacionamentos me encontrava num. Torcendo que fosse diferente.

Inquieta

A música tocava e ela se agitava. O copo na mão balançava junto com o corpo. Deu mais um gole na cerveja. Sentava. Levantava. Gesticulava. Cantava. Levava o copo à boca com delicadeza. Tudo em perfeita sintonia. Cheia de sorrisos fáceis, que a cada vez que se abria hipnotizava mais um. Pediu ao garçom uma dose de Uísque. Talvez pra combinar com a estampa Jack Daniels da camisa que vestia. Usava um short jeans curto que terminava onde começava uma tatuagem. Uma linda tatuagem em volta da coxa esquerda que atraia atenção de todos os olhares. Instigante. Chamativa. Provocante. Deu um gole no uísque. Não tinha medo de se mostrar, nem se interessava pelo que os outros falavam ou pensavam a seu respeito. Fazia o que dava na telha. Fazia o que tinha vontade. Como eu a desejava. Dentre todas as mulheres das quais eu desconhecia o nome, aquele era a que me interessava.

Tem hora que o amor atrapalha

Depois de um tempo separado eles reatam o namoro, e, após a primeira noite de sexo surgem algumas dúvidas:
– Posso te fazer uma pergunta? Ela diz deitada com a cabeça encostada no peito dele.
– Qual?
– Com quantas mulheres cê ficou desde que terminamos?
– Por que cê quer saber disso?
– Só por curiosidade.
– Faz diferença?
– Não, não faz, mas eu quero saber. Diz ela sentando na cama enquanto ele continua deitado.
– Depois de você, eu fiz muitas coisas das quais não me orgulho.
– Foram tantas assim?
– Algumas.
– E por que você não se orgulha? Não foi bom?
– Não é isso.
– Então foi bom?
– E se tiver sido bom?
– Eu só quero saber.
Ele também se levanta e senta de costas pra ela. – Acontecia porque eu queria preencher espaço, ocupar a cabeça, não lembrar de você, te esquecer…
– Pelo visto você não esqueceu. Ela diz virando-se e olhando para ele.
– E você? Ele pergunta.
– Eu o quê?
– Com quantos?
– Com quantos eu dormi?
– É.
– Você tinha razão, não faz diferença. Ela diz esquivando-se.
– Mas eu também quero saber.
– Pra ficar me julgando?
– Não é o que você está fazendo agora? Ele pergunta com rapidez.
– Não… talvez!
– Só me diga quando foi a primeira vez depois que terminamos.
– Melhor não.
– Um mês depois?
Ela balança a cabeça negativamente.
– Menos? Ele pergunta incrédulo.
Ela consente com a cabeça e afirma dizendo: – Eu queria te esquecer.
– Foi quanto tempo depois?
– É melhor eu não falar.
– Quanto tempo? Ele pergunta novamente.
– Nove dias.
– Por isso você não me ligou. Ele diz levantando da cama.
– Não tem nada a ver. Eu não te liguei porque você não me procurou.
– Eu não te liguei porque você mandou eu não te procurar, me excluiu e me bloqueou das redes sociais.
– Eu estava com raiva.
– E a raiva não passou?
– Sinceramente eu acho que ela tá voltando.
– Então é melhor mudar de assunto. Diz ele sentando na cama novamente e indo pra perto dela.
Ela então se levanta e diz:
– Sabe? Têm horas que te odeio tanto, e por vezes peço pra que esse ódio seja pra sempre. Mas eu não consigo, eu fico te odiando e pensando em você, e quando percebo eu estou chorando, sentindo sua falta, te querendo de volta. Ela volta à cama e senta ao lado dele e pergunta: – Você já sentiu o que sente por mim por outra pessoa?
– Da forma que eu sinto por você, nunca. Isso é um problema, às vezes. Ele diz deitando-se.
– Por que um problema? Ela o encara.
– De você eu sinto ciúme mesmo quando estamos separados, me preocupo quando sei ou sinto que você não está bem. Mesmo sem estarmos nos falando, têm horas que quero te ligar apenas pra ouvir sua voz, esquecer os problemas, conversar sobre qualquer coisa…
Ambos fazem silêncio. Depois ele continua:
– Sabe?! Eu fiquei com outras pessoas, mas com elas eu não queria estar presente vinte e quatro horas. Por vezes, eu inventava uma ou outra desculpa pra não ter que sair ou conversar em alguns momentos. Quando discutíamos ou terminávamos realmente era um alívio. Eu fiquei até feliz quando algumas delas começaram a namorar ou me traiam. Mas com você é diferente. E nunca, nunca senti o que sinto por você por outro alguém, acho até impossível isso acontecer.
– Tem hora que o amor atrapalha. Ela diz deitando e encostando a cabeça novamente no peito dele.
– Como assim?
– Eu também sinto isso por você, então, crio expectativas e espero mais. Me chateio mais contigo do que com qualquer outra pessoa, por coisas pelas quais eu não iria discutir e muito menos me importar, com você tem esse peso a mais, às vezes, qualquer pouco é muito, em outras, qualquer muito é pouco.

Ah, o Tempo!

Os amigos estavam sempre dizendo “Só o tempo vai te fazer melhorar”, “Nenhuma palavra que eu disser vai amenizar essa dor, apenas o tempo”. O tempo! O tempo! O tempo! Era a única coisa que ela ouvia. E o tempo não curava, apenas piorava. “Quanto tempo, esse tempo vai durar, até que eu me sinta melhor?” Ela se perguntava. “O Tempo não ameniza nada” ela dizia. Ela achava aquela dor insuportável. Olhava o celular a cada dois minutos, ansiosa por uma mensagem, uma ligação ou alguma notícia de uma pessoa que não estava nem aí pro seu sofrimento. As horas se arrastavam, então ela dormia. Dormia pra não pensar nele. Dormia querendo acordar de um pesadelo. Os olhos estavam sempre fundos de tanto chorar. Parecia que o mundo inteiro era feliz, menos ela. Hoje, depois de algum tempo, ela olha pro passado e com um sorriso no rosto pergunta “Como eu pude ser aquela pessoa patética?”. Caramba! Como o tempo ajudou. Não lembra exatamente quando tudo mudou, mas não foi de uma hora pra outra. Lembra que um dia acordou, abriu os olhos e não teve aquela vontade de dormir novamente. Levantou, tomou o café, arrumou a bolsa e quando estava fechando a porta levou a mão ao cabelo e pensou “Caramba, esquecendo algo, mas não sei o que.” Ela esqueceu de sofrer por alguém que não valia a pena.

Será que ela não assistiu Hitch?

Tivemos uma tarde sem defeitos. Foram horas de conversa. Horas que passaram em questão de minutos. A tarde foi cheia de olhares, gestos e sorrisos. Logo após fui deixá-la em casa. Chegamos ao portão de sua casa e ficamos conversando. Eu esperava o tempo todo pelo momento em que ela pegaria a chave. Não pegou. Nos despedimos com um forte e demorado abraço. Mas continuamos conversando e nada dela pegar, mexer, balançar, deixar cair, sacudir a maldita chave. Será que ela tinha chave? Ou será que ela não assistiu Hitch: conselheiro amoroso?. O sinal de que você quer um beijo é mexer na chave. Mais uma vez nos despedimos. Dessa vez com um beijo no rosto e um abraço mais longo. O segundo em menos de minutos. Era esse o sinal? Será que Hitch estava errado? Depois que a soltei, virei às costas e saí caminhando. Então escuto o maldito barulho da chave. Continuo caminhando. Percebo a imensa dificuldade dela em abrir a porta. Continuei andando. Ouço o barulho da chave caindo…  Era tarde demais pra ser um sinal.

 

Depois do término

Ela dormia esperando que quando acordasse descobrisse que tudo aquilo foi um sonho. Acordava e descobria que não era. Era real. Então dormia novamente. Dormia pra encurtar o dia. Dormia pra não lembrar. Dormia pra entrar num mundo só dela.
Ele, pelo contrário, pouco dormia, queria ficar acordado. Cada vez mais frequente e conhecido nas baladas. Figura carimbada da noite. Tinha várias válvulas de escape e o álcool era uma delas. Virava dias e noites bebendo. Colecionava bocas e camas.
Ela ouvia as histórias e chorava. Ele, por enquanto, ainda ria. Mas era inevitável, um dia se encontrariam. Era uma cidade pequena; era Brasília, e é quase impossível não esbarrar por aí em amores antigos.
Ele estava numa festa com os amigos. Ela chegou com as amigas e uns “novos amigos”. Ele a olhou entrando. Os segundos se prolongaram. Filmes passaram na sua cabeça; ligações dela das quais ele não quis atender e muito menos retornar, a primeira vez deles, as festas juntos, os sorrisos, os bons e até os momentos difíceis em que ela foi seu alicerce, seu pilar, sua base. Aqueles frágeis braços foram por muitas vezes sua fortaleza e por um erro dele tudo acabou. Uma traição infantil. E quando ela descobriu, ele já quis o fim. Queria curtir!
Hoje foi o dia em que ele se arrependeu. De novo estava encantado. Ela fingia não notá-lo. Ele tentava chamar a atenção. Ela sorria conquistando a todos em volta. Ela era linda; Ela estava linda. Ele apenas a olhava. O telefone dela tocou. Olhou no visor. Desligou. Pobre coitado, o coração dela cicatrizava enquanto o dele sangrava. A vida dela recomeçava enquanto o sofrimento dele se iniciava.

Eu odeio nomes compostos

“Um recente estudo aponta que pessoas com nomes compostos tendem a desenvolver dupla personalidade. Isso porque em círculos de amizades e até entre os familiares eles são sempre chamados por um, outro ou até mesmo pelos dois nomes. Isso faz com que eles possam adquirir uma personalidade pra cada nome. Não sou eu, é a ciência”. Foi essa minha explicação quando eu disse que não gosto de nomes compostos naquela conversa sobre quais seriam o nome dos nossos futuros filhos na roda do barzinho, pós ou pré-aula, não me lembro agora. Mas defendi minha tese. Ops! A tese dos cientistas. Porém tenho que agradecer essa minha aversão a nomes compostos, ela me fez se aproximar de você Maria Isabela. Quando no meio do meu discurso você disse: “Meu nome é composto”. “É Maísa o quê?”, eu Perguntei. “Não, Maísa é apelido. São as iniciais de cada nome; Ma de Maria e Isa de Isabela.”, “Quantas personalidades cê tem?”. Eu perguntei. Todos na mesa sorriram. E odeio mesmo nomes compostos, até mesmo o seu Maria Isabela. E ela me disse que apenas sua mãe a chama assim, e só nos momentos de extrema raiva, na maior parte do tempo é Maria. Explicou que as amigas de infância só a conhecem por Isa, e apenas Isa. E foram as amigas da faculdade que juntaram as iniciais dos nomes e agora só a chamam de Maísa. E sempre que aparece alguém chamando-a de Maria ou Isa, ela tem que explicar que Maísa é a junção de Maria Isabela. Já eu, desde então, comecei a chama-la de Bela. Disse após uma cerveja, um beijo e outra cerveja, que combinava mais com o seu rosto. E assim, sem querer, acabei te dando mais uma personalidade.

Não era um simples “Oi”

O celular vibrou. Um alerta de mensagem. “Oi”, era o que estava escrito. Um simples “Oi”! O que pode ser chamado de vazio, mas se tinha algo que aquela mensagem não era, era vazia. Depois de tanto tempo, aquele era o melhor TEXTO a ser enviado. Aquela combinação de duas letras, duas vogais, aprendidas nos anos iniciais nas aulas de português, que Machado jamais ousou deixá-las sozinha num parágrafo, me fez ficar boquiaberto como se tivesse chegado ao final de uma grande obra do mesmo. Imaginei ela formulando as palavras pra escrever um grande texto e assim explicar tudo. Até tenha escrito e revisado várias vezes, mas a mesma coragem de escrever todas aquelas palavras não foi suficiente pra pressionar o enviar. Então, pensou em mandar: “Estou com saudade. Estava pensando em você”, mas ela própria deve ter antecipado os possíveis questionamentos depois de tanto tempo. Deve ter pensado em ser informal: “Olá, como você está? O que anda fazendo…?”, mas avaliado e percebido que havia muitas explicações pra não ser. Imaginei que ela deva ter pensando por horas, quem sabe dias, e que deve ter escrito, apagado e mudado as mensagens centenas de vezes. Então, depois de tanto tempo, e de tantas palavras apagadas e reescritas que passaram por ali, aquele “Oi” não pode ser considerado vazio.