Tem hora que o amor atrapalha

Depois de um tempo separado eles reatam o namoro, e, após a primeira noite de sexo surgem algumas dúvidas:
– Posso te fazer uma pergunta? Ela diz deitada com a cabeça encostada no peito dele.
– Qual?
– Com quantas mulheres cê ficou desde que terminamos?
– Por que cê quer saber disso?
– Só por curiosidade.
– Faz diferença?
– Não, não faz, mas eu quero saber. Diz ela sentando na cama enquanto ele continua deitado.
– Depois de você, eu fiz muitas coisas das quais não me orgulho.
– Foram tantas assim?
– Algumas.
– E por que você não se orgulha? Não foi bom?
– Não é isso.
– Então foi bom?
– E se tiver sido bom?
– Eu só quero saber.
Ele também se levanta e senta de costas pra ela. – Acontecia porque eu queria preencher espaço, ocupar a cabeça, não lembrar de você, te esquecer…
– Pelo visto você não esqueceu. Ela diz virando-se e olhando para ele.
– E você? Ele pergunta.
– Eu o quê?
– Com quantos?
– Com quantos eu dormi?
– É.
– Você tinha razão, não faz diferença. Ela diz esquivando-se.
– Mas eu também quero saber.
– Pra ficar me julgando?
– Não é o que você está fazendo agora? Ele pergunta com rapidez.
– Não… talvez!
– Só me diga quando foi a primeira vez depois que terminamos.
– Melhor não.
– Um mês depois?
Ela balança a cabeça negativamente.
– Menos? Ele pergunta incrédulo.
Ela consente com a cabeça e afirma dizendo: – Eu queria te esquecer.
– Foi quanto tempo depois?
– É melhor eu não falar.
– Quanto tempo? Ele pergunta novamente.
– Nove dias.
– Por isso você não me ligou. Ele diz levantando da cama.
– Não tem nada a ver. Eu não te liguei porque você não me procurou.
– Eu não te liguei porque você mandou eu não te procurar, me excluiu e me bloqueou das redes sociais.
– Eu estava com raiva.
– E a raiva não passou?
– Sinceramente eu acho que ela tá voltando.
– Então é melhor mudar de assunto. Diz ele sentando na cama novamente e indo pra perto dela.
Ela então se levanta e diz:
– Sabe? Têm horas que te odeio tanto, e por vezes peço pra que esse ódio seja pra sempre. Mas eu não consigo, eu fico te odiando e pensando em você, e quando percebo eu estou chorando, sentindo sua falta, te querendo de volta. Ela volta à cama e senta ao lado dele e pergunta: – Você já sentiu o que sente por mim por outra pessoa?
– Da forma que eu sinto por você, nunca. Isso é um problema, às vezes. Ele diz deitando-se.
– Por que um problema? Ela o encara.
– De você eu sinto ciúme mesmo quando estamos separados, me preocupo quando sei ou sinto que você não está bem. Mesmo sem estarmos nos falando, têm horas que quero te ligar apenas pra ouvir sua voz, esquecer os problemas, conversar sobre qualquer coisa…
Ambos fazem silêncio. Depois ele continua:
– Sabe?! Eu fiquei com outras pessoas, mas com elas eu não queria estar presente vinte e quatro horas. Por vezes, eu inventava uma ou outra desculpa pra não ter que sair ou conversar em alguns momentos. Quando discutíamos ou terminávamos realmente era um alívio. Eu fiquei até feliz quando algumas delas começaram a namorar ou me traiam. Mas com você é diferente. E nunca, nunca senti o que sinto por você por outro alguém, acho até impossível isso acontecer.
– Tem hora que o amor atrapalha. Ela diz deitando e encostando a cabeça novamente no peito dele.
– Como assim?
– Eu também sinto isso por você, então, crio expectativas e espero mais. Me chateio mais contigo do que com qualquer outra pessoa, por coisas pelas quais eu não iria discutir e muito menos me importar, com você tem esse peso a mais, às vezes, qualquer pouco é muito, em outras, qualquer muito é pouco.

Ah, o Tempo!

Os amigos estavam sempre dizendo “Só o tempo vai te fazer melhorar”, “Nenhuma palavra que eu disser vai amenizar essa dor, apenas o tempo”. O tempo! O tempo! O tempo! Era a única coisa que ela ouvia. E o tempo não curava, apenas piorava. “Quanto tempo, esse tempo vai durar, até que eu me sinta melhor?” Ela se perguntava. “O Tempo não ameniza nada” ela dizia. Ela achava aquela dor insuportável. Olhava o celular a cada dois minutos, ansiosa por uma mensagem, uma ligação ou alguma notícia de uma pessoa que não estava nem aí pro seu sofrimento. As horas se arrastavam, então ela dormia. Dormia pra não pensar nele. Dormia querendo acordar de um pesadelo. Os olhos estavam sempre fundos de tanto chorar. Parecia que o mundo inteiro era feliz, menos ela. Hoje, depois de algum tempo, ela olha pro passado e com um sorriso no rosto pergunta “Como eu pude ser aquela pessoa patética?”. Caramba! Como o tempo ajudou. Não lembra exatamente quando tudo mudou, mas não foi de uma hora pra outra. Lembra que um dia acordou, abriu os olhos e não teve aquela vontade de dormir novamente. Levantou, tomou o café, arrumou a bolsa e quando estava fechando a porta levou a mão ao cabelo e pensou “Caramba, esquecendo algo, mas não sei o que.” Ela esqueceu de sofrer por alguém que não valia a pena.

Será que ela não assistiu Hitch?

Tivemos uma tarde sem defeitos. Foram horas de conversa. Horas que passaram em questão de minutos. A tarde foi cheia de olhares, gestos e sorrisos. Logo após fui deixá-la em casa. Chegamos ao portão de sua casa e ficamos conversando. Eu esperava o tempo todo pelo momento em que ela pegaria a chave. Não pegou. Nos despedimos com um forte e demorado abraço. Mas continuamos conversando e nada dela pegar, mexer, balançar, deixar cair, sacudir a maldita chave. Será que ela tinha chave? Ou será que ela não assistiu Hitch: conselheiro amoroso?. O sinal de que você quer um beijo é mexer na chave. Mais uma vez nos despedimos. Dessa vez com um beijo no rosto e um abraço mais longo. O segundo em menos de minutos. Era esse o sinal? Será que Hitch estava errado? Depois que a soltei, virei às costas e saí caminhando. Então escuto o maldito barulho da chave. Continuo caminhando. Percebo a imensa dificuldade dela em abrir a porta. Continuei andando. Ouço o barulho da chave caindo…  Era tarde demais pra ser um sinal.

 

Depois do término

Ela dormia esperando que quando acordasse descobrisse que tudo aquilo foi um sonho. Acordava e descobria que não era. Era real. Então dormia novamente. Dormia pra encurtar o dia. Dormia pra não lembrar. Dormia pra entrar num mundo só dela.
Ele, pelo contrário, pouco dormia, queria ficar acordado. Cada vez mais frequente e conhecido nas baladas. Figura carimbada da noite. Tinha várias válvulas de escape e o álcool era uma delas. Virava dias e noites bebendo. Colecionava bocas e camas.
Ela ouvia as histórias e chorava. Ele, por enquanto, ainda ria. Mas era inevitável, um dia se encontrariam. Era uma cidade pequena; era Brasília, e é quase impossível não esbarrar por aí em amores antigos.
Ele estava numa festa com os amigos. Ela chegou com as amigas e uns “novos amigos”. Ele a olhou entrando. Os segundos se prolongaram. Filmes passaram na sua cabeça; ligações dela das quais ele não quis atender e muito menos retornar, a primeira vez deles, as festas juntos, os sorrisos, os bons e até os momentos difíceis em que ela foi seu alicerce, seu pilar, sua base. Aqueles frágeis braços foram por muitas vezes sua fortaleza e por um erro dele tudo acabou. Uma traição infantil. E quando ela descobriu, ele já quis o fim. Queria curtir!
Hoje foi o dia em que ele se arrependeu. De novo estava encantado. Ela fingia não notá-lo. Ele tentava chamar a atenção. Ela sorria conquistando a todos em volta. Ela era linda; Ela estava linda. Ele apenas a olhava. O telefone dela tocou. Olhou no visor. Desligou. Pobre coitado, o coração dela cicatrizava enquanto o dele sangrava. A vida dela recomeçava enquanto o sofrimento dele se iniciava.

Eu odeio nomes compostos

“Um recente estudo aponta que pessoas com nomes compostos tendem a desenvolver dupla personalidade. Isso porque em círculos de amizades e até entre os familiares eles são sempre chamados por um, outro ou até mesmo pelos dois nomes. Isso faz com que eles possam adquirir uma personalidade pra cada nome. Não sou eu, é a ciência”. Foi essa minha explicação quando eu disse que não gosto de nomes compostos naquela conversa sobre quais seriam o nome dos nossos futuros filhos na roda do barzinho, pós ou pré-aula, não me lembro agora. Mas defendi minha tese. Ops! A tese dos cientistas. Porém tenho que agradecer essa minha aversão a nomes compostos, ela me fez se aproximar de você Maria Isabela. Quando no meio do meu discurso você disse: “Meu nome é composto”. “É Maísa o quê?”, eu Perguntei. “Não, Maísa é apelido. São as iniciais de cada nome; Ma de Maria e Isa de Isabela.”, “Quantas personalidades cê tem?”. Eu perguntei. Todos na mesa sorriram. E odeio mesmo nomes compostos, até mesmo o seu Maria Isabela. E ela me disse que apenas sua mãe a chama assim, e só nos momentos de extrema raiva, na maior parte do tempo é Maria. Explicou que as amigas de infância só a conhecem por Isa, e apenas Isa. E foram as amigas da faculdade que juntaram as iniciais dos nomes e agora só a chamam de Maísa. E sempre que aparece alguém chamando-a de Maria ou Isa, ela tem que explicar que Maísa é a junção de Maria Isabela. Já eu, desde então, comecei a chama-la de Bela. Disse após uma cerveja, um beijo e outra cerveja, que combinava mais com o seu rosto. E assim, sem querer, acabei te dando mais uma personalidade.

Não era um simples “Oi”

O celular vibrou. Um alerta de mensagem. “Oi”, era o que estava escrito. Um simples “Oi”! O que pode ser chamado de vazio, mas se tinha algo que aquela mensagem não era, era vazia. Depois de tanto tempo, aquele era o melhor TEXTO a ser enviado. Aquela combinação de duas letras, duas vogais, aprendidas nos anos iniciais nas aulas de português, que Machado jamais ousou deixá-las sozinha num parágrafo, me fez ficar boquiaberto como se tivesse chegado ao final de uma grande obra do mesmo. Imaginei ela formulando as palavras pra escrever um grande texto e assim explicar tudo. Até tenha escrito e revisado várias vezes, mas a mesma coragem de escrever todas aquelas palavras não foi suficiente pra pressionar o enviar. Então, pensou em mandar: “Estou com saudade. Estava pensando em você”, mas ela própria deve ter antecipado os possíveis questionamentos depois de tanto tempo. Deve ter pensado em ser informal: “Olá, como você está? O que anda fazendo…?”, mas avaliado e percebido que havia muitas explicações pra não ser. Imaginei que ela deva ter pensando por horas, quem sabe dias, e que deve ter escrito, apagado e mudado as mensagens centenas de vezes. Então, depois de tanto tempo, e de tantas palavras apagadas e reescritas que passaram por ali, aquele “Oi” não pode ser considerado vazio.

Por que você saiu da minha vida?

Ela se questiona sobre a pergunta que fiz e responde: “Eu não sei o porquê… Talvez tenha ficado com medo. Novamente nós estávamos apressando as coisas. Você entende, né?”. Não, eu queria, gostaria, mas não entendo. Ela continua: “É irônico. Eu saí da tua vida, mas andei te procurando. Te procurei em bares, boates e camas desconhecidas. Evitava-te, mas te procurava… Procurava nesses tipos parecidos contigo; desleixados, com o cabelo bagunçado, descompromissados e de barba por fazer. É engraçado, nem os que se parecem contigo são como você.”. Sorri. “Eles não têm esse sorriso canto de boca que você tem, digno de quem se sente superior aos demais, ou quando ri timidamente como você. Nenhum deles tinha esse olhar hipnótico e desconfortável ao mesmo tempo. É perturbador e encantador te olhar nos olhos…”. É isso que ela diz depois de termos nos encontrado numa sexta-feira qualquer. Por acaso ou por querer. Não, o destino não seria tão filha-da-puta pra nos sacanear assim mais uma vez. Seria? Ela me conta o porquê fugiu da última vez, porque não telefonou e porque não quis mais nenhuma comunicação. Digo que fiquei preocupado e que me importei com o sumiço, mas eu a conheço tão bem que sempre que vai só fico preocupado esperando quando ela vai voltar. Porque eu sei que vai voltar. Mas não sei quando. Não sei se será numa segunda tranquila, numa sexta alcoolizada ou num domingo familiar. Eu a conheço melhor do que ninguém. Daqui a pouco ela vai dizer, de forma descompromissada como se nada tivesse acontecido “Estava pensando em você. Estava com saudades”. É assim que sempre faz. E parece que vem dando certo…

 

Depois de você

Depois de tanto tempo eu te reencontro e perco o chão; fico pálida, gelada e assustada como se tivesse visto alguém que foi dado como morto e voltou à vida. De certa forma você é mesmo uma assombração, e por mais que eu soubesse que estava vivo, e; querendo ou não, perguntando ou não, indo atrás ou não, variavelmente eu sabia como você estava e com quem estava. Mas como eu estava dizendo, pra mim, você não deixa de ser uma assombração, eu tinha te dado como morto, ou, pelo menos, achei que meus sentimentos por você tinham morrido. Pobre tola eu fui. Meus sentimentos por você tinham apenas adormecidos e foi só te ver novamente que eles ganharam vida. Você mudou. Está mais encorpado, o rosto mais forte com traços firmes e um ar confiante com olhar sensato que nem de longe parece lembrar aquele adolescente pelo qual era/fui/sou apaixonada. Mas ainda há traços daquele jovem, o jeito desleixado de propósito, o cabelo naquela desorganização impecável e o sorriso… Ah, o sorriso! Esse sim não mudou nada, continua aquele típico sorriso canto de boca que só você consegue fazer, de uma presunção que me deixa perplexa. E nem precisa dizer nada, sabe que estou rígida, assustada, mas que meus músculos se contraem de tal forma que sinto meu corpo todo tremer. Você diz: “Oi”, “Olá”. Não sei. Não entendi. Não prestei atenção. Continuo chocada. E te olhando lembro e penso em todos os namorados, ficantes, amantes, mortais e hereges que tocaram meu corpo depois de você. Eu lembro das asneiras, insanidades e promessas que sussurraram ao meu ouvido, mas com esse teu sorriso presunçoso você mostra que sabe, e eu imóvel na sua frente confirmo o que a Paula Toller e o Leoni já cantaram “depois de você, os outros são os outros e só”.

Paixões passageiras

O ônibus parou. Desci. Local errado. Ainda estava desnorteado lembrando do momento em que a vi no ônibus. Eu me apaixono rápido demais, foi o primeiro pensamento que tive quando a notei sentada com um livro na mão. Não me pergunte qual era, não fiquei curioso, me contentei apenas em ficar admirando-a. Algo nela me chamou a atenção instantaneamente. Ah, essas paixões passageiras! Desculpe o trocadilho. Ela levantou a vista, talvez pra ver se já estava chegando ao destino. Mas o olhar dela me encontrou e eu não consegui desviar. Ela sorriu sem graça como se dissesse “Dá pra disfarçar!”. Não dava, era impossível. Usava óculos, o que podia ser considerado crime hediondo por cobrir aquele belo par de olhos castanhos. E quando abriu o sorriso foi hipnótico. Um sorriso largo que desbancava até Julia Roberts. Voltou a olhar para o livro. Eu não conseguia disfarçar. Acho que realmente ficou assustada. Levantou a mão direita e deu sinal. Antes de descer ajeitou o óculos no rosto, depois empurrou o cabelo pra trás da orelha num gesto delicado. Ela desceu e a vontade de descer atrás foi imensa. Às vezes só vontade não basta. Fiquei atordoado. Dei o sinal no local errado.