Amor, tá acordado?

– Amor, tá acordado?
Ele ainda dorme.
– Amor, acorda!
Nada.
– Amor!
Ele acorda.
– Amor, tá acordado?
Ele grunhi algo.
– Amor, tô com sede, tem como pegar água pra mim?
“Amor, são três da manhã”, ele pensa em dizer, mas acredita que aquilo não seja um pedido. Então, contrariado, levanta e vai à cozinha, enche um copo com água e volta à cama pensando novamente em dormir. Mas se ela está acordada até essa hora é porque não consegue dormir, e, certamente usou o copo d’água como pretexto. Então, ele deita e fecha os olhos.
– Amor, sabe o que eu tava pensando?
– Hum. Ele responde.
Ela fala até ele perder o sono e logo após adormece.

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Olhos que falam

Enquanto os amigos conversam, ele fica em silêncio e me encara. Me encara como se soubesse o que eu estou pensando. Será que sabe?! Desvia o olhar naquele momento que eu retribuo. Mas antes de desviar, fala com os meus olhos por longos décimos de segundos. E como aqueles olhos castanhos escuros sabem se comunicar! Talvez, se fossem claros não se comunicariam de forma tão intensa assim. Continuo o observando, enquanto ele leva o copo de cerveja à boca, dá um belo de um gole e depois volta a cerveja à mesa. É do tipo que sabe beber! Diz algo gesticulando aos amigos, com gestos rápidos. Típico de quem quer ser visto. Volta a me olhar, então é minha vez de desviar o olhar. Uso, então, gestos pra me comunicar. Levo com a mão direita o cabelo pra trás da orelha, abaixando levemente a cabeça e sorrindo. Acabo me entregando. Ele me encara novamente. Retribuo. Nossos olhos conversam por alguns segundos, até que ele vem ao meu encontro.

Você acredita em alma gêmea?

– Você acredita em alma gêmea? Ela me perguntou.
– Não! Eu disse de maneira rápida.
Ela me achou um pouco ríspido e logo retrucou: – Você me diz que é um romântico e não acredita em alma gêmea.
– Sou um romântico sensato. Eu falei.
– Sensato? Ela perguntou.
– Sim! Suponhamos que alma gêmea exista, seria muita pretensão que com bilhões de habitantes na Terra, a minha alma gêmea estivesse nascido no mesmo país que eu, e, seria uma pretensão maior ainda, que eu fosse conhecê-la. Eu não acredito que exista, mas se existe, é provável que a minha é chinesa, senão for, ela é fabricada lá, no mínimo.
– E no que você acredita então, senhor romântico? Ela perguntou com ironia.
– Acredito em pessoas que se esforçam, porque pessoas perfeitas não existem, todas têm defeitos, alguns incorrigíveis ou insuportáveis. Porque gostar de alguém é algo fácil, o difícil é continuar gostando depois de conhecê-la melhor. Pois quando nos apaixonamos é algo rápido, mas um dia a paixão acaba e, é nesse momento, que ela pode ou não se transformar em amor, depende de você; se permitir sentir ou não, se quiser se doar ou não.

Nunca vou entender o porquê

Nunca vou entender o porquê discutíamos tanto. Discutíamos por dias, ressuscitávamos discussões já resolvidas pra citá-las e assim continuarmos discutindo. Éramos bons nisso, mas nunca vou entender o porquê.
Ela, filha única, mimada, que fez um tour durante dois anos pela Europa e, após voltar à Brasília, morava num apartamento cedido pelo pai. Enquanto, eu, filho mais velho de quarto irmãos, morava sozinho desde os dezoito, trabalhava e pagava o aluguel de um pequena Kit e custeava um curso de administração.
Não sei como nos apaixonamos, isso nunca aconteceria, senão tivéssemos nos encontrado naquele barzinho, no qual ela fazia cover da Cássia Eller. Juro que nunca teria me apaixonado se ela não fosse tão talentosa. Depois nos encontramos em uma outra apresentação dela, depois do show conversamos sobre Cazuza, Renato, Biquíni, Kid, Paralamas, Capital, Titãs… Não teria me apaixonado, não fosse o excelente gosto musical. Também não teria me apaixonado, não fosse o beijo excelente e as noites pouco dormidas por causa do sexo intenso. Se na nossa primeira ida ao cinema, ela não tivesse me convidado pra ver um clássico (isso mesmo, ela me convidou, disse que eu dava rodeios demais). Assistimos perfume de mulher. Não fosse o excelente filme, não sei se estaríamos juntos hoje. Com certeza, eu não me apaixonaria, se depois de algumas insistências, ela não tivesse lido, amado e odiado Dean Moriarty em On The Road.
Mas eu não consigo entender o porquê discutimos tanto. Com certeza, ela não vai entender que o principal motivo de eu chegar atrasado pra buscá-la no aeroporto, é o congestionamento, e não o fato de eu ter acordado um pouco atrasado. Também não entenderá porque estou no meu carro e não no carro dela, como ela pediu. Porra! Eu odeio dirigir o carro dela.

Reencontro

Hoje o reencontrei, depois de mais de quatro anos, foi estranho, nostálgico e muito difícil vê-lo novamente. De longe, eu o observava, enquanto discutia comigo mesma se devia ir ou não falar com ele. Fisicamente não mudou tanto, mas essa mesma aparência revelava que ele não era mais o mesmo. Pouco envelheceu, mas seu rosto mostrava um amadurecimento, sem perder aquela expressão jovial. Conversava com um amigo, numa conversa descontraída, cheia de sorrisos e gestos. Uma vez eu lhe disse: “Se você perder os braços, perde também a fala”. Gesticulando ele me respondeu: “Não há como falar de outra forma”. Então, decidida fui ao seu encontro e, enquanto, percorria esse curto e demorado caminho, vejo uma criança correndo e gritando seu nome. Ele rapidamente se agacha e a abraça. Uma cena que imaginei mil vezes acontecer, mas não dessa forma. Sempre imaginei que essa criança seria nossa filha. Logo depois, ela puxa-o pelo braço, querendo mostrar algo. Quando ele olha pra cima, me nota e vem ao meu encontro, com um sorriso assustado e espontâneo. Trazendo-a consigo, ele sorri e diz: “Oi”. Eu perplexa e com o coração palpitando digo: “Olá”. Ela, pequena, linda e toda sorrisos, diz: “Oi, tudo bem?”. E antes que eu possa fugir ela pergunta: “Ela é sua amiga, tio?”, pergunta a ele.

Talvez faltassem alguns requisitos

– Você ainda pensa nela?
– Sim, mas raramente.
– E sente falta?
– Também. Ela é uma pessoa divertida, inteligente, instigante, e sempre, sempre pensando de forma positiva, parece nunca acordar triste, sem contar que é linda e o sexo…
– Entendi. Interrompeu.
– Formávamos um belo casal, mas não éramos casáveis.
– Casáveis?
– É, acredito que algumas pessoas não são casáveis.
Ela fez silêncio, enquanto ele prosseguiu:
– O casamento sofreu muito com o passar do tempo, antigamente, casar era quase que um negócio: A família negociava a filha pra se tornar esposa de alguém, tinha o dote, o dinheiro e infelizmente não podiam separar, porque a época não permitia o desquite.
– E hoje?
– Calma! Um tempo depois, o casamento envolveu amor, curiosamente, bem na época que começaram as traduções em grande escala de Romeu e Julieta. Nessa época, as mulheres batiam o pé, fugiam com seus amantes, queriam casar por amor, serem felizes, terem filhos e etc. Esses casamentos davam mais certos que os atuais.
Ela concordou com a cabeça. 
– Mas hoje, os casamentos viraram negócios, não como antigamente, acho que piores. A maioria das pessoas esqueceram o amor, casam por requisitos: “Ele é inteligente, tem um bom emprego e estabilidade financeira”, “Gosto dele, não o amo, mas dizem que aprendemos a amar, né?”. Pouco tempo depois eles se separam e procuram outros, com outros requisitos, pra se adaptarem as suas novas necessidades. Casamento hoje é uma espécie de emprego, você fica um tempo e se você não gostar ou não for bem-sucedido, você procura outro.
Ela refletiu um pouco e perguntou:
– E por que vocês não são casáveis?
– Talvez faltassem alguns requisitos.
 

O que resta é sumir

Ela, amiga de ambos, o ligou:
– Como você está?
– Da parte de quem?
– Da minha parte, ora.
– Estou mal.
– E se fosse da parte dela?
– Poderia dizer que estou bem.
– Pra quê isso?
– Desculpa! Mas eu não posso fingir que está tudo bem e agir como se eu não sentisse nada.
– Mas você não pode ser escravo dos seus sentimentos.
– Então, serei refém do que finjo não sentir esperando que meus sentimentos mudem?
– Não! Mas se distanciando, o que você quer? Não percebe que assim você a ajuda a te esquecer?!.
– Tive momentos demais junto dela pra fazer com que ela se lembre de mim sem que me veja.
– Então, está se distanciando pra fazer falta?
– Não, estou me distanciando pra não fazer mais nada.

Decidiu correr; precisava pensar

Amarrou o cadarço do tênis esquerdo e depois o do direito. Conferiu se estavam firmes. Levantou, desceu as escadas do prédio em que morava enquanto configurava o aplicativo de corrida no celular e selecionava uma playlist no mesmo.
Mais uma vez os pensamentos estavam desorganizados na mente, mais uma vez necessitava correr e reorganiza-los. A corrida sempre fora um refúgio. As músicas selecionadas sempre foram um ponto de equilíbrio emocional.
Há tempos não corria, embora fosse um dos seus esportes favorito. Começou com um trote bem leve. Ele considerava os minutos iniciais os piores momentos da corrida. São quando os músculos saem da inercia em busca de um ritmo apropriado. Ele não estava preocupado com o tempo, apenas queria correr e tentar manter quase o mesmo ritmo em cada quilômetro. Apesar da falta de preparo físico era um corredor experiente, aos poucos conseguiu encontrar um ritmo confortável entre as passadas.
Ele corria pra organizar os pensamentos e pensar, embora quando estivesse correndo parecia não pensar em, sua mente relaxava e os pensamentos se organizavam. Se perguntou porque tinha ficado tantos meses sem correr. Era sempre assim que acontecia; voltava a correr, ficava por um tempo, mas aos poucos era engolido e puxado pela rotina e o comodismo.
Sentia os músculos cansarem, as pernas ficarem pesadas, mas conseguia continuar. A música tocava alto nos fones de ouvidos. Vez ou outra cantava alguns trechos, atento em não deixar o ritmo cair. Sentia-se bem. Sentia a endorfina.
Voltou ao apartamento. Estava extremamente suado, a respiração ofegante e já sentia as dores do esforço físico nas pernas. Pegou uma garrafa de água na geladeira e bebeu por completo. Descansou mais um pouco antes de ir pro banho. A água caía sobre ele trazendo uma enorme sensação de prazer.
Acordara sentindo as dores musculares da corrida no dia anterior. Permaneceu deitado. Estava exausto, porém satisfeito. Os pensamentos continuavam em ordem.

Então, ela apareceu…

Nós vamos mudando aos poucos, até nos tornarmos totalmente estranhos para nós mesmos.
Até alguns meses atrás, eu era um insensível, daqueles que fugiam de relacionamentos por conta de um péssimo histórico. Eu discursava contra amor e qualquer coisa relacionada a ele. Eu amava o casual. Noites casuais, pessoas casuais, camas casuais…
Eu era do tipo que saía, sorrateiramente, no meio da noite. Andando na ponta dos dedos, apenas pra não dizer aquelas mentiras de praxes, sobre querer repetir a noite.
Eu evitava relacionamentos ou qualquer coisa que parecesse ou pudesse se tornar um. Algumas pessoas tentaram, foram persuasivas e persistentes. E quando eu me tocava estava no quinto encontro ou com o fim de semana programado, e sem perceber, eu fugia. Deixava o telefone tocar. Demorava pra responder uma mensagem. Dava aquelas desculpas com mentiras sinceras de quem não quer compromisso.
Às vezes, eu não precisava de desculpas, elas me encontravam acompanhado, ou num barzinho, naquele dia que eu disse que ficaria em casa. Fugia delas de forma consciente, inconsciente ou com uma forma de olhos mais bonitos.
Sempre mostrei de início que não queria me apegar, mesmo assim é inevitável o sofrimento de alguém. Não é você, sou eu. E a vida foi seguindo.
Eu frequentava boates e barzinhos apenas pelo prazer da conversa ou do ambiente. Passava a noite entre conversas e goles de uísque puro. Sorria, discordava, acenava ao garçom e então mais uma noite terminava.
Eu estava acomodado com a vida de solteiro. Sem essa necessidade de ter alguém. Eu me bastava. Eu me sentia bem. Já não era mais o Thomas da Gabi do Direito e nem da Manu de Psicologia. Era apenas o Thomas.
Então, ela apareceu, não foi em nenhum dia excepcional ou atípico, era um dia comum, desses que nem o clima mostra que algo diferente está prestes a acontecer. E com uma conversa simples e despretensiosa, nós trocamos sorrisos, dividimos gostos em comum e repulsas também, discordando em outros pontos. Os gostos em comum se tornaram atrativos para futuras conversas. As trocas de filmes, livros e músicas começaram. E com o jeito meio tímido, meio tô entrando, ela se encaixou nos meus horários e eu nos dela.
Meu discurso tinha mudado, eu que abominava relacionamentos me encontrava num. Torcendo que fosse diferente.