Depois de você

Depois de tanto tempo eu te reencontro e perco o chão; fico pálida, gelada e assustada como se tivesse visto alguém que foi dado como morto e voltou à vida. De certa forma você é mesmo uma assombração, e por mais que eu soubesse que estava vivo, e; querendo ou não, perguntando ou não, indo atrás ou não, variavelmente eu sabia como você estava e com quem estava. Mas como eu estava dizendo, pra mim, você não deixa de ser uma assombração, eu tinha te dado como morto, ou, pelo menos, achei que meus sentimentos por você tinham morrido. Pobre tola eu fui. Meus sentimentos por você tinham apenas adormecidos e foi só te ver novamente que eles ganharam vida. Você mudou. Está mais encorpado, o rosto mais forte com traços firmes e um ar confiante com olhar sensato que nem de longe parece lembrar aquele adolescente pelo qual era/fui/sou apaixonada. Mas ainda há traços daquele jovem, o jeito desleixado de propósito, o cabelo naquela desorganização impecável e o sorriso… Ah, o sorriso! Esse sim não mudou nada, continua aquele típico sorriso canto de boca que só você consegue fazer, de uma presunção que me deixa perplexa. E nem precisa dizer nada, sabe que estou rígida, assustada, mas que meus músculos se contraem de tal forma que sinto meu corpo todo tremer. Você diz: “Oi”, “Olá”. Não sei. Não entendi. Não prestei atenção. Continuo chocada. E te olhando lembro e penso em todos os namorados, ficantes, amantes, mortais e hereges que tocaram meu corpo depois de você. Eu lembro das asneiras, insanidades e promessas que sussurraram ao meu ouvido, mas com esse teu sorriso presunçoso você mostra que sabe, e eu imóvel na sua frente confirmo o que a Paula Toller e o Leoni já cantaram “depois de você, os outros são os outros e só”.

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Frejat: psicólogo de casais

Ela me olhou com aquele olhar que só ela sabe fazer. Um misto dos olhares expressivos de James Dean e Ryan Atwood. Firme e compenetrado. Não dizia nada, apenas me olhava. Falava com aquele olhar. Dizia tudo sem dizer uma palavra. Compreendi e rapidamente senti o gosto dos teus lábios. Ela me pedia desculpas enquanto suas unhas cravavam minhas costas, e eu dizia o mesmo enquanto beijava seu pescoço…. Tínhamos entrado no carro sem trocar uma palavra. Ela ligou o player. Frejat tocava no pen drive. Era o meu pen drive que estava no carro dela. Objeto pelo qual ela já tinha direito a usucapião, capturado por ela nos nossos primeiros meses de namoro. Eu quero a sorte de um amor tranquilo, era o que Frejat pedia. E foi tudo que não tivemos aquela noite. Minutos depois ele dizia: sobre nós dois, ninguém nunca vai saber de tudo, parece uma partida contra o resto do mundo… quase o que tinha acontecido. Discutíamos por causa de algumas pessoas, que sabe lá deus, remexiam em feridas já cicatrizadas do nosso relacionamento, acontecimentos que elas; se quer compreendiam. Ouvir isso de outros nos causou um mal-estar, e depois uma irritação acabou nos acertando. Frejat, nosso psicólogo de casais, tomou a palavra durante todo o trajeto até o apartamento dela. Ouvíamos em silêncio. Antes de descermos do carro ele acrescentou: esquece a nossa última briga, lembra o primeiro beijo e ouça essa cantiga. Eu não quero brigar mais não eu quero você toda pra mim… Permanecemos em silêncio por mais um minuto e dezessete segundos. O tempo exato do elevador chegar ao sexto andar. Entrarmos em seu apartamento, eu fechei a porta, ela sentou no sofá e me fez aquele olhar…