Como o orgulho fala besteira quando se cala

Eu não estava ali, não psicologicamente. Eu não parava de pensar Nela e na ligação que ela me fez horas antes para falar exatamente um pouco mais que quase nada. Perguntou como eu estava e eu disse que estava bem. Menti. Refiz a pergunta e ela também disse que estava bem. Acredito que também tenha mentido. Depois procurou algumas palavras pra dizer e certamente já tinha se arrependido por ter ligado. Fiquei calado, apenas calado, e como o orgulho fala besteira quando se cala. Pra acabar a nossa tortura e o silêncio cortante eu disse que estava chegando ao trabalho. Nos despedimos expressando praticamente só o vazio do silêncio e esperando que o outro entendesse as palavras difíceis de ser ditas.

Tem hora que o amor atrapalha

Depois de um tempo separado eles reatam o namoro, e, após a primeira noite de sexo surgem algumas dúvidas:
– Posso te fazer uma pergunta? Ela diz deitada com a cabeça encostada no peito dele.
– Qual?
– Com quantas mulheres cê ficou desde que terminamos?
– Por que cê quer saber disso?
– Só por curiosidade.
– Faz diferença?
– Não, não faz, mas eu quero saber. Diz ela sentando na cama enquanto ele continua deitado.
– Depois de você, eu fiz muitas coisas das quais não me orgulho.
– Foram tantas assim?
– Algumas.
– E por que você não se orgulha? Não foi bom?
– Não é isso.
– Então foi bom?
– E se tiver sido bom?
– Eu só quero saber.
Ele também se levanta e senta de costas pra ela. – Acontecia porque eu queria preencher espaço, ocupar a cabeça, não lembrar de você, te esquecer…
– Pelo visto você não esqueceu. Ela diz virando-se e olhando para ele.
– E você? Ele pergunta.
– Eu o quê?
– Com quantos?
– Com quantos eu dormi?
– É.
– Você tinha razão, não faz diferença. Ela diz esquivando-se.
– Mas eu também quero saber.
– Pra ficar me julgando?
– Não é o que você está fazendo agora? Ele pergunta com rapidez.
– Não… talvez!
– Só me diga quando foi a primeira vez depois que terminamos.
– Melhor não.
– Um mês depois?
Ela balança a cabeça negativamente.
– Menos? Ele pergunta incrédulo.
Ela consente com a cabeça e afirma dizendo: – Eu queria te esquecer.
– Foi quanto tempo depois?
– É melhor eu não falar.
– Quanto tempo? Ele pergunta novamente.
– Nove dias.
– Por isso você não me ligou. Ele diz levantando da cama.
– Não tem nada a ver. Eu não te liguei porque você não me procurou.
– Eu não te liguei porque você mandou eu não te procurar, me excluiu e me bloqueou das redes sociais.
– Eu estava com raiva.
– E a raiva não passou?
– Sinceramente eu acho que ela tá voltando.
– Então é melhor mudar de assunto. Diz ele sentando na cama novamente e indo pra perto dela.
Ela então se levanta e diz:
– Sabe? Têm horas que te odeio tanto, e por vezes peço pra que esse ódio seja pra sempre. Mas eu não consigo, eu fico te odiando e pensando em você, e quando percebo eu estou chorando, sentindo sua falta, te querendo de volta. Ela volta à cama e senta ao lado dele e pergunta: – Você já sentiu o que sente por mim por outra pessoa?
– Da forma que eu sinto por você, nunca. Isso é um problema, às vezes. Ele diz deitando-se.
– Por que um problema? Ela o encara.
– De você eu sinto ciúme mesmo quando estamos separados, me preocupo quando sei ou sinto que você não está bem. Mesmo sem estarmos nos falando, têm horas que quero te ligar apenas pra ouvir sua voz, esquecer os problemas, conversar sobre qualquer coisa…
Ambos fazem silêncio. Depois ele continua:
– Sabe?! Eu fiquei com outras pessoas, mas com elas eu não queria estar presente vinte e quatro horas. Por vezes, eu inventava uma ou outra desculpa pra não ter que sair ou conversar em alguns momentos. Quando discutíamos ou terminávamos realmente era um alívio. Eu fiquei até feliz quando algumas delas começaram a namorar ou me traiam. Mas com você é diferente. E nunca, nunca senti o que sinto por você por outro alguém, acho até impossível isso acontecer.
– Tem hora que o amor atrapalha. Ela diz deitando e encostando a cabeça novamente no peito dele.
– Como assim?
– Eu também sinto isso por você, então, crio expectativas e espero mais. Me chateio mais contigo do que com qualquer outra pessoa, por coisas pelas quais eu não iria discutir e muito menos me importar, com você tem esse peso a mais, às vezes, qualquer pouco é muito, em outras, qualquer muito é pouco.

Só o amor não basta, é preciso estar interessado em amar

Eu sempre acreditei que duas pessoas que se amam e lutam por esse amor conseguem ficar juntas. Mas vocês já ouviram dizer que só o amor não basta? Parece ser uma frase totalmente incoerente quando se está amando. E pra mim, que sempre disse ser romântico, me parecia ser um sacrilégio. Mas percebo agora que essa frase tem grande fundamento.
Terminamos da pior forma que uma relação termina, não com insultos, mas com ambos ainda se amando e escancarando no rosto “eu te amo, mas não damos certo. Não dá mais”. E dói. Dói porque é a pura verdade. Só o amor não basta, é preciso estar interessado em amar.
Às vezes, amamos mas não estamos preparados pra situações que a vida nos apresenta e acabamos perdendo o interesse. São rotinas, horários, distância, trabalho, sonhos, planos e momentos de vidas diferentes. É a carga emocional ou maturidade que um tem e que outro ainda não adquiriu. E nós estávamos num desses momentos, estávamos nos amando em um momento errado, e no melhor significado da palavra amor, queríamos o melhor do outro.
Eu não sou menos romântico por acreditar que o amor não supera tudo. Eu sou romântico o suficiente pra reconhecer que amar, às vezes, é entender que estaremos melhor e mais felizes sem insistirmos no amor.
Amar é compreensão de que quando não estamos nos sentindo bem e nem fazendo bem um ao outro é melhor terminar

Procure alguém que dê qualidade aos teus defeitos

Sempre ouvi a frase “procure alguém que suporte teus defeitos”, e na mesma quantidade de vezes em que ouvia eu discordava e dizia a mim mesmo: “Procure alguém que dê qualidade aos teus defeitos”. Aliás, qualidades e defeitos são nada menos que adjetivos que alguém usa pra nos qualificar. Se uma pessoa entende que sua espontaneidade é impulsividade, que sua intensidade é excessiva, que seu sentimentalismo é ingenuidade, que sua persistência é teimosia e etc, haverá outra que entenderá diferente. Então, procure alguém que te dê adjetivos de qualidade.

Ah, o Tempo!

Os amigos estavam sempre dizendo “Só o tempo vai te fazer melhorar”, “Nenhuma palavra que eu disser vai amenizar essa dor, apenas o tempo”. O tempo! O tempo! O tempo! Era a única coisa que ela ouvia. E o tempo não curava, apenas piorava. “Quanto tempo, esse tempo vai durar, até que eu me sinta melhor?” Ela se perguntava. “O Tempo não ameniza nada” ela dizia. Ela achava aquela dor insuportável. Olhava o celular a cada dois minutos, ansiosa por uma mensagem, uma ligação ou alguma notícia de uma pessoa que não estava nem aí pro seu sofrimento. As horas se arrastavam, então ela dormia. Dormia pra não pensar nele. Dormia querendo acordar de um pesadelo. Os olhos estavam sempre fundos de tanto chorar. Parecia que o mundo inteiro era feliz, menos ela. Hoje, depois de algum tempo, ela olha pro passado e com um sorriso no rosto pergunta “Como eu pude ser aquela pessoa patética?”. Caramba! Como o tempo ajudou. Não lembra exatamente quando tudo mudou, mas não foi de uma hora pra outra. Lembra que um dia acordou, abriu os olhos e não teve aquela vontade de dormir novamente. Levantou, tomou o café, arrumou a bolsa e quando estava fechando a porta levou a mão ao cabelo e pensou “Caramba, esquecendo algo, mas não sei o que.” Ela esqueceu de sofrer por alguém que não valia a pena.

Depois do Fim

Dói. Até que a gente se acostuma e, de repente, a dor parece sumir. A anestesia funciona. O álcool funciona. Por um bom tempo funciona. Até que as lembranças que não foram embora, voltam. O álcool parece já não surtir mais efeito na dor e no esquecimento. As ressacas são, cada vez mais, emocionais que físicas. As festas já não distraem tanto. As pessoas, antes atraentes, são cada vez mais desinteressantes. As notificações no celular, que antes te faziam esquecer, agora se tornam esperança, de uma mensagem dela(e) aparecer.

Depois do término

Ela dormia esperando que quando acordasse descobrisse que tudo aquilo foi um sonho. Acordava e descobria que não era. Era real. Então dormia novamente. Dormia pra encurtar o dia. Dormia pra não lembrar. Dormia pra entrar num mundo só dela.
Ele, pelo contrário, pouco dormia, queria ficar acordado. Cada vez mais frequente e conhecido nas baladas. Figura carimbada da noite. Tinha várias válvulas de escape e o álcool era uma delas. Virava dias e noites bebendo. Colecionava bocas e camas.
Ela ouvia as histórias e chorava. Ele, por enquanto, ainda ria. Mas era inevitável, um dia se encontrariam. Era uma cidade pequena; era Brasília, e é quase impossível não esbarrar por aí em amores antigos.
Ele estava numa festa com os amigos. Ela chegou com as amigas e uns “novos amigos”. Ele a olhou entrando. Os segundos se prolongaram. Filmes passaram na sua cabeça; ligações dela das quais ele não quis atender e muito menos retornar, a primeira vez deles, as festas juntos, os sorrisos, os bons e até os momentos difíceis em que ela foi seu alicerce, seu pilar, sua base. Aqueles frágeis braços foram por muitas vezes sua fortaleza e por um erro dele tudo acabou. Uma traição infantil. E quando ela descobriu, ele já quis o fim. Queria curtir!
Hoje foi o dia em que ele se arrependeu. De novo estava encantado. Ela fingia não notá-lo. Ele tentava chamar a atenção. Ela sorria conquistando a todos em volta. Ela era linda; Ela estava linda. Ele apenas a olhava. O telefone dela tocou. Olhou no visor. Desligou. Pobre coitado, o coração dela cicatrizava enquanto o dele sangrava. A vida dela recomeçava enquanto o sofrimento dele se iniciava.

Não era um simples “Oi”

O celular vibrou. Um alerta de mensagem. “Oi”, era o que estava escrito. Um simples “Oi”! O que pode ser chamado de vazio, mas se tinha algo que aquela mensagem não era, era vazia. Depois de tanto tempo, aquele era o melhor TEXTO a ser enviado. Aquela combinação de duas letras, duas vogais, aprendidas nos anos iniciais nas aulas de português, que Machado jamais ousou deixá-las sozinha num parágrafo, me fez ficar boquiaberto como se tivesse chegado ao final de uma grande obra do mesmo. Imaginei ela formulando as palavras pra escrever um grande texto e assim explicar tudo. Até tenha escrito e revisado várias vezes, mas a mesma coragem de escrever todas aquelas palavras não foi suficiente pra pressionar o enviar. Então, pensou em mandar: “Estou com saudade. Estava pensando em você”, mas ela própria deve ter antecipado os possíveis questionamentos depois de tanto tempo. Deve ter pensado em ser informal: “Olá, como você está? O que anda fazendo…?”, mas avaliado e percebido que havia muitas explicações pra não ser. Imaginei que ela deva ter pensando por horas, quem sabe dias, e que deve ter escrito, apagado e mudado as mensagens centenas de vezes. Então, depois de tanto tempo, e de tantas palavras apagadas e reescritas que passaram por ali, aquele “Oi” não pode ser considerado vazio.

Por que você saiu da minha vida?

Ela se questiona sobre a pergunta que fiz e responde: “Eu não sei o porquê… Talvez tenha ficado com medo. Novamente nós estávamos apressando as coisas. Você entende, né?”. Não, eu queria, gostaria, mas não entendo. Ela continua: “É irônico. Eu saí da tua vida, mas andei te procurando. Te procurei em bares, boates e camas desconhecidas. Evitava-te, mas te procurava… Procurava nesses tipos parecidos contigo; desleixados, com o cabelo bagunçado, descompromissados e de barba por fazer. É engraçado, nem os que se parecem contigo são como você.”. Sorri. “Eles não têm esse sorriso canto de boca que você tem, digno de quem se sente superior aos demais, ou quando ri timidamente como você. Nenhum deles tinha esse olhar hipnótico e desconfortável ao mesmo tempo. É perturbador e encantador te olhar nos olhos…”. É isso que ela diz depois de termos nos encontrado numa sexta-feira qualquer. Por acaso ou por querer. Não, o destino não seria tão filha-da-puta pra nos sacanear assim mais uma vez. Seria? Ela me conta o porquê fugiu da última vez, porque não telefonou e porque não quis mais nenhuma comunicação. Digo que fiquei preocupado e que me importei com o sumiço, mas eu a conheço tão bem que sempre que vai só fico preocupado esperando quando ela vai voltar. Porque eu sei que vai voltar. Mas não sei quando. Não sei se será numa segunda tranquila, numa sexta alcoolizada ou num domingo familiar. Eu a conheço melhor do que ninguém. Daqui a pouco ela vai dizer, de forma descompromissada como se nada tivesse acontecido “Estava pensando em você. Estava com saudades”. É assim que sempre faz. E parece que vem dando certo…