Foi o pior melhor relacionamento

Era o primeiro relacionamento sério de ambos. Era a primeira vez que ambos estavam realmente apaixonados. Era um namoro cheio de sonhos e planos, ainda que com duas pessoas iniciando realmente a vida. Não sabíamos a dimensão do mundo, nem as surpresas da vida e muito menos como ela iria nos agredir. Tínhamos uma visão poética do mundo, do futuro e de nós mesmos. Vivemos tudo que uma relação assim tem direito. Amor, confiança, sexo, brigas, términos, voltas, traições, insegurança, desejo, ciúme, medo, paixão. Namoramos por cerca de cinco anos, com muitas inconstâncias e frustrações. Frustrações proporcionais ao aprendizado que tivemos. Tivemos as dificuldades de um namoro a distância. Tivemos um período de amor proibido. Tivemos um período em que parecíamos casados que moravam nas casas dos pais. Amamos, sofremos, choramos. Tudo com intensidade. Nos decepcionamos e nos magoamos mais do que qualquer outro namoro ou paixão que estivesse por vir. Foi a primeira vez que nos sentimos magoados, iludidos ou frustrados numa relação. Foi o aprendizado pra todas as próximas. Foram as primeiras vezes a sentir tais sentimentos. Era como descobrir um mundo nunca explorado por nós. Foi uma relação de sentimentos primordiais. Foi a pior relação. Foi a melhor relação. Hoje, podemos até termos as mesmas emoções, mas não os mesmos sentimentos, se são maiores ou menores agora, são dos aprendizados que essa nos trouxe.

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Então, ela apareceu…

Nós vamos mudando aos poucos, até nos tornarmos totalmente estranhos para nós mesmos.
Até alguns meses atrás, eu era um insensível, daqueles que fugiam de relacionamentos por conta de um péssimo histórico. Eu discursava contra amor e qualquer coisa relacionada a ele. Eu amava o casual. Noites casuais, pessoas casuais, camas casuais…
Eu era do tipo que saía, sorrateiramente, no meio da noite. Andando na ponta dos dedos, apenas pra não dizer aquelas mentiras de praxes, sobre querer repetir a noite.
Eu evitava relacionamentos ou qualquer coisa que parecesse ou pudesse se tornar um. Algumas pessoas tentaram, foram persuasivas e persistentes. E quando eu me tocava estava no quinto encontro ou com o fim de semana programado, e sem perceber, eu fugia. Deixava o telefone tocar. Demorava pra responder uma mensagem. Dava aquelas desculpas com mentiras sinceras de quem não quer compromisso.
Às vezes, eu não precisava de desculpas, elas me encontravam acompanhado, ou num barzinho, naquele dia que eu disse que ficaria em casa. Fugia delas de forma consciente, inconsciente ou com uma forma de olhos mais bonitos.
Sempre mostrei de início que não queria me apegar, mesmo assim é inevitável o sofrimento de alguém. Não é você, sou eu. E a vida foi seguindo.
Eu frequentava boates e barzinhos apenas pelo prazer da conversa ou do ambiente. Passava a noite entre conversas e goles de uísque puro. Sorria, discordava, acenava ao garçom e então mais uma noite terminava.
Eu estava acomodado com a vida de solteiro. Sem essa necessidade de ter alguém. Eu me bastava. Eu me sentia bem. Já não era mais o Thomas da Gabi do Direito e nem da Manu de Psicologia. Era apenas o Thomas.
Então, ela apareceu, não foi em nenhum dia excepcional ou atípico, era um dia comum, desses que nem o clima mostra que algo diferente está prestes a acontecer. E com uma conversa simples e despretensiosa, nós trocamos sorrisos, dividimos gostos em comum e repulsas também, discordando em outros pontos. Os gostos em comum se tornaram atrativos para futuras conversas. As trocas de filmes, livros e músicas começaram. E com o jeito meio tímido, meio tô entrando, ela se encaixou nos meus horários e eu nos dela.
Meu discurso tinha mudado, eu que abominava relacionamentos me encontrava num. Torcendo que fosse diferente.

Se apaixonar depois de tanto tempo é como dirigir numa mão inversa

Nós evitamos tanto não se envolver e não se apegar por causa de experiências antigas, que quando isso acontece, depois de muito tempo evitando, não sabemos como agir. É como se fossemos um motorista num local estranho sem saber pra onde ir e qual via pegar. O GPS está desatualizado. Somos um motorista primeira viagem indo dirigir em Londres. Sabemos dirigir, mas não dessa forma, não numa mão inversa. Temos que aprender novamente. E o mesmo acontece com o amor.

Como o orgulho fala besteira quando se cala

Eu não estava ali, não psicologicamente. Eu não parava de pensar Nela e na ligação que ela me fez horas antes para falar exatamente um pouco mais que quase nada. Perguntou como eu estava e eu disse que estava bem. Menti. Refiz a pergunta e ela também disse que estava bem. Acredito que também tenha mentido. Depois procurou algumas palavras pra dizer e certamente já tinha se arrependido por ter ligado. Fiquei calado, apenas calado, e como o orgulho fala besteira quando se cala. Pra acabar a nossa tortura e o silêncio cortante eu disse que estava chegando ao trabalho. Nos despedimos expressando praticamente só o vazio do silêncio e esperando que o outro entendesse as palavras difíceis de ser ditas.

Tem hora que o amor atrapalha

Depois de um tempo separado eles reatam o namoro, e, após a primeira noite de sexo surgem algumas dúvidas:
– Posso te fazer uma pergunta? Ela diz deitada com a cabeça encostada no peito dele.
– Qual?
– Com quantas mulheres cê ficou desde que terminamos?
– Por que cê quer saber disso?
– Só por curiosidade.
– Faz diferença?
– Não, não faz, mas eu quero saber. Diz ela sentando na cama enquanto ele continua deitado.
– Depois de você, eu fiz muitas coisas das quais não me orgulho.
– Foram tantas assim?
– Algumas.
– E por que você não se orgulha? Não foi bom?
– Não é isso.
– Então foi bom?
– E se tiver sido bom?
– Eu só quero saber.
Ele também se levanta e senta de costas pra ela. – Acontecia porque eu queria preencher espaço, ocupar a cabeça, não lembrar de você, te esquecer…
– Pelo visto você não esqueceu. Ela diz virando-se e olhando para ele.
– E você? Ele pergunta.
– Eu o quê?
– Com quantos?
– Com quantos eu dormi?
– É.
– Você tinha razão, não faz diferença. Ela diz esquivando-se.
– Mas eu também quero saber.
– Pra ficar me julgando?
– Não é o que você está fazendo agora? Ele pergunta com rapidez.
– Não… talvez!
– Só me diga quando foi a primeira vez depois que terminamos.
– Melhor não.
– Um mês depois?
Ela balança a cabeça negativamente.
– Menos? Ele pergunta incrédulo.
Ela consente com a cabeça e afirma dizendo: – Eu queria te esquecer.
– Foi quanto tempo depois?
– É melhor eu não falar.
– Quanto tempo? Ele pergunta novamente.
– Nove dias.
– Por isso você não me ligou. Ele diz levantando da cama.
– Não tem nada a ver. Eu não te liguei porque você não me procurou.
– Eu não te liguei porque você mandou eu não te procurar, me excluiu e me bloqueou das redes sociais.
– Eu estava com raiva.
– E a raiva não passou?
– Sinceramente eu acho que ela tá voltando.
– Então é melhor mudar de assunto. Diz ele sentando na cama novamente e indo pra perto dela.
Ela então se levanta e diz:
– Sabe? Têm horas que te odeio tanto, e por vezes peço pra que esse ódio seja pra sempre. Mas eu não consigo, eu fico te odiando e pensando em você, e quando percebo eu estou chorando, sentindo sua falta, te querendo de volta. Ela volta à cama e senta ao lado dele e pergunta: – Você já sentiu o que sente por mim por outra pessoa?
– Da forma que eu sinto por você, nunca. Isso é um problema, às vezes. Ele diz deitando-se.
– Por que um problema? Ela o encara.
– De você eu sinto ciúme mesmo quando estamos separados, me preocupo quando sei ou sinto que você não está bem. Mesmo sem estarmos nos falando, têm horas que quero te ligar apenas pra ouvir sua voz, esquecer os problemas, conversar sobre qualquer coisa…
Ambos fazem silêncio. Depois ele continua:
– Sabe?! Eu fiquei com outras pessoas, mas com elas eu não queria estar presente vinte e quatro horas. Por vezes, eu inventava uma ou outra desculpa pra não ter que sair ou conversar em alguns momentos. Quando discutíamos ou terminávamos realmente era um alívio. Eu fiquei até feliz quando algumas delas começaram a namorar ou me traiam. Mas com você é diferente. E nunca, nunca senti o que sinto por você por outro alguém, acho até impossível isso acontecer.
– Tem hora que o amor atrapalha. Ela diz deitando e encostando a cabeça novamente no peito dele.
– Como assim?
– Eu também sinto isso por você, então, crio expectativas e espero mais. Me chateio mais contigo do que com qualquer outra pessoa, por coisas pelas quais eu não iria discutir e muito menos me importar, com você tem esse peso a mais, às vezes, qualquer pouco é muito, em outras, qualquer muito é pouco.

Só o amor não basta, é preciso estar interessado em amar

Eu sempre acreditei que duas pessoas que se amam e lutam por esse amor conseguem ficar juntas. Mas vocês já ouviram dizer que só o amor não basta? Parece ser uma frase totalmente incoerente quando se está amando. E pra mim, que sempre disse ser romântico, me parecia ser um sacrilégio. Mas percebo agora que essa frase tem grande fundamento.
Terminamos da pior forma que uma relação termina, não com insultos, mas com ambos ainda se amando e escancarando no rosto “eu te amo, mas não damos certo. Não dá mais”. E dói. Dói porque é a pura verdade. Só o amor não basta, é preciso estar interessado em amar.
Às vezes, amamos mas não estamos preparados pra situações que a vida nos apresenta e acabamos perdendo o interesse. São rotinas, horários, distância, trabalho, sonhos, planos e momentos de vidas diferentes. É a carga emocional ou maturidade que um tem e que outro ainda não adquiriu. E nós estávamos num desses momentos, estávamos nos amando em um momento errado, e no melhor significado da palavra amor, queríamos o melhor do outro.
Eu não sou menos romântico por acreditar que o amor não supera tudo. Eu sou romântico o suficiente pra reconhecer que amar, às vezes, é entender que estaremos melhor e mais felizes sem insistirmos no amor.
Amar é compreensão de que quando não estamos nos sentindo bem e nem fazendo bem um ao outro é melhor terminar

Procure alguém que dê qualidade aos teus defeitos

Sempre ouvi a frase “procure alguém que suporte teus defeitos”, e na mesma quantidade de vezes em que ouvia eu discordava e dizia a mim mesmo: “Procure alguém que dê qualidade aos teus defeitos”. Aliás, qualidades e defeitos são nada menos que adjetivos que alguém usa pra nos qualificar. Se uma pessoa entende que sua espontaneidade é impulsividade, que sua intensidade é excessiva, que seu sentimentalismo é ingenuidade, que sua persistência é teimosia e etc, haverá outra que entenderá diferente. Então, procure alguém que te dê adjetivos de qualidade.

Ah, o Tempo!

Os amigos estavam sempre dizendo “Só o tempo vai te fazer melhorar”, “Nenhuma palavra que eu disser vai amenizar essa dor, apenas o tempo”. O tempo! O tempo! O tempo! Era a única coisa que ela ouvia. E o tempo não curava, apenas piorava. “Quanto tempo, esse tempo vai durar, até que eu me sinta melhor?” Ela se perguntava. “O Tempo não ameniza nada” ela dizia. Ela achava aquela dor insuportável. Olhava o celular a cada dois minutos, ansiosa por uma mensagem, uma ligação ou alguma notícia de uma pessoa que não estava nem aí pro seu sofrimento. As horas se arrastavam, então ela dormia. Dormia pra não pensar nele. Dormia querendo acordar de um pesadelo. Os olhos estavam sempre fundos de tanto chorar. Parecia que o mundo inteiro era feliz, menos ela. Hoje, depois de algum tempo, ela olha pro passado e com um sorriso no rosto pergunta “Como eu pude ser aquela pessoa patética?”. Caramba! Como o tempo ajudou. Não lembra exatamente quando tudo mudou, mas não foi de uma hora pra outra. Lembra que um dia acordou, abriu os olhos e não teve aquela vontade de dormir novamente. Levantou, tomou o café, arrumou a bolsa e quando estava fechando a porta levou a mão ao cabelo e pensou “Caramba, esquecendo algo, mas não sei o que.” Ela esqueceu de sofrer por alguém que não valia a pena.