Talvez faltassem alguns requisitos

– Você ainda pensa nela?
– Sim, mas raramente.
– E sente falta?
– Também. Ela é uma pessoa divertida, inteligente, instigante, e sempre, sempre pensando de forma positiva, parece nunca acordar triste, sem contar que é linda e o sexo…
– Entendi. Interrompeu.
– Formávamos um belo casal, mas não éramos casáveis.
– Casáveis?
– É, acredito que algumas pessoas não são casáveis.
Ela fez silêncio, enquanto ele prosseguiu:
– O casamento sofreu muito com o passar do tempo, antigamente, casar era quase que um negócio: A família negociava a filha pra se tornar esposa de alguém, tinha o dote, o dinheiro e infelizmente não podiam separar, porque a época não permitia o desquite.
– E hoje?
– Calma! Um tempo depois, o casamento envolveu amor, curiosamente, bem na época que começaram as traduções em grande escala de Romeu e Julieta. Nessa época, as mulheres batiam o pé, fugiam com seus amantes, queriam casar por amor, serem felizes, terem filhos e etc. Esses casamentos davam mais certos que os atuais.
Ela concordou com a cabeça. 
– Mas hoje, os casamentos viraram negócios, não como antigamente, acho que piores. A maioria das pessoas esqueceram o amor, casam por requisitos: “Ele é inteligente, tem um bom emprego e estabilidade financeira”, “Gosto dele, não o amo, mas dizem que aprendemos a amar, né?”. Pouco tempo depois eles se separam e procuram outros, com outros requisitos, pra se adaptarem as suas novas necessidades. Casamento hoje é uma espécie de emprego, você fica um tempo e se você não gostar ou não for bem-sucedido, você procura outro.
Ela refletiu um pouco e perguntou:
– E por que vocês não são casáveis?
– Talvez faltassem alguns requisitos.
 

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Não era um simples “Oi”

O celular vibrou. Um alerta de mensagem. “Oi”, era o que estava escrito. Um simples “Oi”! O que pode ser chamado de vazio, mas se tinha algo que aquela mensagem não era, era vazia. Depois de tanto tempo, aquele era o melhor TEXTO a ser enviado. Aquela combinação de duas letras, duas vogais, aprendidas nos anos iniciais nas aulas de português, que Machado jamais ousou deixá-las sozinha num parágrafo, me fez ficar boquiaberto como se tivesse chegado ao final de uma grande obra do mesmo. Imaginei ela formulando as palavras pra escrever um grande texto e assim explicar tudo. Até tenha escrito e revisado várias vezes, mas a mesma coragem de escrever todas aquelas palavras não foi suficiente pra pressionar o enviar. Então, pensou em mandar: “Estou com saudade. Estava pensando em você”, mas ela própria deve ter antecipado os possíveis questionamentos depois de tanto tempo. Deve ter pensado em ser informal: “Olá, como você está? O que anda fazendo…?”, mas avaliado e percebido que havia muitas explicações pra não ser. Imaginei que ela deva ter pensando por horas, quem sabe dias, e que deve ter escrito, apagado e mudado as mensagens centenas de vezes. Então, depois de tanto tempo, e de tantas palavras apagadas e reescritas que passaram por ali, aquele “Oi” não pode ser considerado vazio.

Eu fiz o que devia ter feito

Coloquei a água no fogo.
Fazíamos parte desses amores modernos. Dessas relações que começam e terminam por uma mensagem, ligação ou redes sociais.
A água fervia!
O telefone vibrou. Era uma mensagem dela dizendo “acabou”.
Apaguei o fogo.
Respondi e disse que não entendi. Ela me ligou e continuou. “Não dá mais. Não damos certo. Somos um péssimo casal. Terminou!”. Questionei. Esbravejei. Até que silenciei. Ela desligou o telefone. Foi o fim da ligação. Da nossa ligação!
Acendi o fogo novamente. Misturei a água com o açúcar e depois com café. Ferveu. Apaguei o fogo. Passei pelo coador. Pronto! Coloquei o café na xícara. Bebi.
Eu fiz o que devia ter feito. Um Café forte.

Atualização

Antes “Era uma vez…”
Agora é quando te segui
Ou te adicionei.

Antes “Eu te amo” tinha significado.
Agora o que significa
São curtidas
E comentários.

Antes os relacionamentos terminavam
E as pessoas se separavam.
Agora elas se excluem
Ou se bloqueiam.

E o antigo “Felizes para sempre”,
Já não dura tanto tempo assim

Crônica dos olhares

Caminhando com destinos distintos os olhares se encontram em meio à multidão. Olhares atrasados, apressados, ocupados, estressados, cansados, angustiados, tímidos, desajeitados  caminhando a passos largos. Olhares grandes, pequenos, puxados, míopes, desajustados, desalinhados. Olhares sozinhos ou acompanhados, fiéis ou infiéis.  Olhares que jamais se viram e talvez nunca mais voltem a se encontrar. Olhares que quando se encontram olho a olho em pouco tempo se apaixonam. Olhares que continuam a passos largos, mas agora apaixonados. Olhares que não cessam e se distanciam até se desencontrarem. Olhares que se esquecem e logo após se perdem. Olhares que seguem.