Distâncias

Não sei conviver com distância, nem física, nem emocional. Sou intenso demais e por mais que eu ame nossas longas conversas ao celular, nenhuma tecnologia vai me fazer tocar teus lábios, sentir teu cheiro, o macio dos seus cabelos ou me deixar aceitar um trago do seu cigarro pós-sexo virtual.
Ainda vivemos nesta irônica sintonia diferente, quando estamos longe, enfrentamos uma distância física; quando levantamos vôo e nos encontramos, ficamos longe emocionalmente e a pequena distância física que nos separa, parece ser um grande precipício.
Nós fazemos bem um ao outro quando estamos longe, porém se nos distanciarmos demais há uma força que nos puxa de volta, mas é só chegarmos perto novamente, que começam as faíscas, e quase sempre, uma tragédia emocional.

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Talvez faltassem alguns requisitos

– Você ainda pensa nela?
– Sim, mas raramente.
– E sente falta?
– Também. Ela é uma pessoa divertida, inteligente, instigante, e sempre, sempre pensando de forma positiva, parece nunca acordar triste, sem contar que é linda e o sexo…
– Entendi. Interrompeu.
– Formávamos um belo casal, mas não éramos casáveis.
– Casáveis?
– É, acredito que algumas pessoas não são casáveis.
Ela fez silêncio, enquanto ele prosseguiu:
– O casamento sofreu muito com o passar do tempo, antigamente, casar era quase que um negócio: A família negociava a filha pra se tornar esposa de alguém, tinha o dote, o dinheiro e infelizmente não podiam separar, porque a época não permitia o desquite.
– E hoje?
– Calma! Um tempo depois, o casamento envolveu amor, curiosamente, bem na época que começaram as traduções em grande escala de Romeu e Julieta. Nessa época, as mulheres batiam o pé, fugiam com seus amantes, queriam casar por amor, serem felizes, terem filhos e etc. Esses casamentos davam mais certos que os atuais.
Ela concordou com a cabeça. 
– Mas hoje, os casamentos viraram negócios, não como antigamente, acho que piores. A maioria das pessoas esqueceram o amor, casam por requisitos: “Ele é inteligente, tem um bom emprego e estabilidade financeira”, “Gosto dele, não o amo, mas dizem que aprendemos a amar, né?”. Pouco tempo depois eles se separam e procuram outros, com outros requisitos, pra se adaptarem as suas novas necessidades. Casamento hoje é uma espécie de emprego, você fica um tempo e se você não gostar ou não for bem-sucedido, você procura outro.
Ela refletiu um pouco e perguntou:
– E por que vocês não são casáveis?
– Talvez faltassem alguns requisitos.
 

Não era um simples “Oi”

O celular vibrou. Um alerta de mensagem. “Oi”, era o que estava escrito. Um simples “Oi”! O que pode ser chamado de vazio, mas se tinha algo que aquela mensagem não era, era vazia. Depois de tanto tempo, aquele era o melhor TEXTO a ser enviado. Aquela combinação de duas letras, duas vogais, aprendidas nos anos iniciais nas aulas de português, que Machado jamais ousou deixá-las sozinha num parágrafo, me fez ficar boquiaberto como se tivesse chegado ao final de uma grande obra do mesmo. Imaginei ela formulando as palavras pra escrever um grande texto e assim explicar tudo. Até tenha escrito e revisado várias vezes, mas a mesma coragem de escrever todas aquelas palavras não foi suficiente pra pressionar o enviar. Então, pensou em mandar: “Estou com saudade. Estava pensando em você”, mas ela própria deve ter antecipado os possíveis questionamentos depois de tanto tempo. Deve ter pensado em ser informal: “Olá, como você está? O que anda fazendo…?”, mas avaliado e percebido que havia muitas explicações pra não ser. Imaginei que ela deva ter pensando por horas, quem sabe dias, e que deve ter escrito, apagado e mudado as mensagens centenas de vezes. Então, depois de tanto tempo, e de tantas palavras apagadas e reescritas que passaram por ali, aquele “Oi” não pode ser considerado vazio.

Eu fiz o que devia ter feito

Coloquei a água no fogo.
Fazíamos parte desses amores modernos. Dessas relações que começam e terminam por uma mensagem, ligação ou redes sociais.
A água fervia!
O telefone vibrou. Era uma mensagem dela dizendo “acabou”.
Apaguei o fogo.
Respondi e disse que não entendi. Ela me ligou e continuou. “Não dá mais. Não damos certo. Somos um péssimo casal. Terminou!”. Questionei. Esbravejei. Até que silenciei. Ela desligou o telefone. Foi o fim da ligação. Da nossa ligação!
Acendi o fogo novamente. Misturei a água com o açúcar e depois com café. Ferveu. Apaguei o fogo. Passei pelo coador. Pronto! Coloquei o café na xícara. Bebi.
Eu fiz o que devia ter feito. Um Café forte.

Atualização

Antes “Era uma vez…”
Agora é quando te segui
Ou te adicionei.

Antes “Eu te amo” tinha significado.
Agora o que significa
São curtidas
E comentários.

Antes os relacionamentos terminavam
E as pessoas se separavam.
Agora elas se excluem
Ou se bloqueiam.

E o antigo “Felizes para sempre”,
Já não dura tanto tempo assim

Crônica dos olhares

Caminhando com destinos distintos os olhares se encontram em meio à multidão. Olhares atrasados, apressados, ocupados, estressados, cansados, angustiados, tímidos, desajeitados  caminhando a passos largos. Olhares grandes, pequenos, puxados, míopes, desajustados, desalinhados. Olhares sozinhos ou acompanhados, fiéis ou infiéis.  Olhares que jamais se viram e talvez nunca mais voltem a se encontrar. Olhares que quando se encontram olho a olho em pouco tempo se apaixonam. Olhares que continuam a passos largos, mas agora apaixonados. Olhares que não cessam e se distanciam até se desencontrarem. Olhares que se esquecem e logo após se perdem. Olhares que seguem.