Maldita ressaca 

Você acorda e jura que nunca mais vai beber. Acorda num mal-estar sem disposição, num misto de Alzheimer e Parkinson. Sente o Parkinson se iniciar ao segurar o copo com a mão e recorrer rapidamente ao auxílio da outra pra que a água não derrame. A água se torna sua bebida preferida. Água! Água! Água!  Bebe vários litros pra equivaler à mesma quantidade de álcool da noite anterior.  O Alzheimer aparece quando tenta se lembrar dos acontecimentos, aparecem flashes, e quando eles aparecem, prefere que o Alzheimer seja real. A vontade de não sair da cama é imensa. A de não trabalhar é maior ainda. Você vai ao banheiro e não reconhece o seu próprio rosto no espelho. Se sente velho, cansado e acabado. Toma um banho. Fica embaixo do chuveiro esperando que a ressaca desça pelo ralo. A água escorre pela cabeça, descendo pelo corpo, na esperança que ela leve embora todas as decepções, frustrações e impurezas da noite anterior pelo ralo. A ressaca continua e parece não terminar hoje. A ressaca não acaba assim tão fácil.

Depois do Fim

Dói. Até que a gente se acostuma e, de repente, a dor parece sumir. A anestesia funciona. O álcool funciona. Por um bom tempo funciona. Até que as lembranças que não foram embora, voltam. O álcool parece já não surtir mais efeito na dor e no esquecimento. As ressacas são, cada vez mais, emocionais que físicas. As festas já não distraem tanto. As pessoas, antes atraentes, são cada vez mais desinteressantes. As notificações no celular, que antes te faziam esquecer, agora se tornam esperança, de uma mensagem dela(e) aparecer.