Volte

A geladeira assim como eu só esvaziou desde que você se foi. É que a minha vida está tão largada quanto eu nesse sofá velho da sala. O controle da TV eu perdi e a TV se encontra naquele mesmo canal de filmes que você gostava. E numa reprise do seu filme preferido eu entendi como aquela cena é mesmo triste, me vi nela. A cama continua do mesmo jeito, conservo aquela bagunça pra não esquecer seu cheiro, recuso-me a deitar nela sem você. Nem o gato eu deixo subir. Aliás, eu queria dizer que ele sente tua falta e pediu pra você voltar. Confesso que eu desejo o mesmo, mas só estou pedindo porque ele pediu. Senão quiser voltar por mim, volte por ele.

Ah, o Tempo!

Os amigos estavam sempre dizendo “Só o tempo vai te fazer melhorar”, “Nenhuma palavra que eu disser vai amenizar essa dor, apenas o tempo”. O tempo! O tempo! O tempo! Era a única coisa que ela ouvia. E o tempo não curava, apenas piorava. “Quanto tempo, esse tempo vai durar, até que eu me sinta melhor?” Ela se perguntava. “O Tempo não ameniza nada” ela dizia. Ela achava aquela dor insuportável. Olhava o celular a cada dois minutos, ansiosa por uma mensagem, uma ligação ou alguma notícia de uma pessoa que não estava nem aí pro seu sofrimento. As horas se arrastavam, então ela dormia. Dormia pra não pensar nele. Dormia querendo acordar de um pesadelo. Os olhos estavam sempre fundos de tanto chorar. Parecia que o mundo inteiro era feliz, menos ela. Hoje, depois de algum tempo, ela olha pro passado e com um sorriso no rosto pergunta “Como eu pude ser aquela pessoa patética?”. Caramba! Como o tempo ajudou. Não lembra exatamente quando tudo mudou, mas não foi de uma hora pra outra. Lembra que um dia acordou, abriu os olhos e não teve aquela vontade de dormir novamente. Levantou, tomou o café, arrumou a bolsa e quando estava fechando a porta levou a mão ao cabelo e pensou “Caramba, esquecendo algo, mas não sei o que.” Ela esqueceu de sofrer por alguém que não valia a pena.

Depois do Fim

Dói. Até que a gente se acostuma e, de repente, a dor parece sumir. A anestesia funciona. O álcool funciona. Por um bom tempo funciona. Até que as lembranças que não foram embora, voltam. O álcool parece já não surtir mais efeito na dor e no esquecimento. As ressacas são, cada vez mais, emocionais que físicas. As festas já não distraem tanto. As pessoas, antes atraentes, são cada vez mais desinteressantes. As notificações no celular, que antes te faziam esquecer, agora se tornam esperança, de uma mensagem dela(e) aparecer.

Depois do término

Ela dormia esperando que quando acordasse descobrisse que tudo aquilo foi um sonho. Acordava e descobria que não era. Era real. Então dormia novamente. Dormia pra encurtar o dia. Dormia pra não lembrar. Dormia pra entrar num mundo só dela.
Ele, pelo contrário, pouco dormia, queria ficar acordado. Cada vez mais frequente e conhecido nas baladas. Figura carimbada da noite. Tinha várias válvulas de escape e o álcool era uma delas. Virava dias e noites bebendo. Colecionava bocas e camas.
Ela ouvia as histórias e chorava. Ele, por enquanto, ainda ria. Mas era inevitável, um dia se encontrariam. Era uma cidade pequena; era Brasília, e é quase impossível não esbarrar por aí em amores antigos.
Ele estava numa festa com os amigos. Ela chegou com as amigas e uns “novos amigos”. Ele a olhou entrando. Os segundos se prolongaram. Filmes passaram na sua cabeça; ligações dela das quais ele não quis atender e muito menos retornar, a primeira vez deles, as festas juntos, os sorrisos, os bons e até os momentos difíceis em que ela foi seu alicerce, seu pilar, sua base. Aqueles frágeis braços foram por muitas vezes sua fortaleza e por um erro dele tudo acabou. Uma traição infantil. E quando ela descobriu, ele já quis o fim. Queria curtir!
Hoje foi o dia em que ele se arrependeu. De novo estava encantado. Ela fingia não notá-lo. Ele tentava chamar a atenção. Ela sorria conquistando a todos em volta. Ela era linda; Ela estava linda. Ele apenas a olhava. O telefone dela tocou. Olhou no visor. Desligou. Pobre coitado, o coração dela cicatrizava enquanto o dele sangrava. A vida dela recomeçava enquanto o sofrimento dele se iniciava.

Serei honesto

Eu gostei de ficar com você. Gostei daquela noite e dos dias depois. Só que eu não estarei sendo tão honesto se continuar ficando contigo. […] Queria que antes de você falar algo ouvisse o que tenho a dizer. […] Eu ainda gosto de alguém. E você me fez esquecer essa pessoa por dias, horas e em vários momentos eu sequer lembrei que ela existia. Mas em outros momentos eu percebi o quanto será difícil esquecê-la. […] Não! Eu não fiquei com você por carência. Não quero que pense isso. […] Eu fiquei porque gostei de te conhecer! Gostei daquela nossa conversa nerd, numa balada, sexta à noite. Onde os outros dançavam sem parar e nós bebíamos cervejas, enquanto discutíamos com afinco sobre: quem venceria uma luta entre Batman e Superman? Quem é mais irônico: Seth Cohen ou Chandler Bing? Qual série é melhor: Friends ou How I Met Your Mother? A melhor banda de rock nacional dos anos 80? O melhor filme do DiCaprio?… Então, de maneira alguma, eu ousaria dizer que tudo que aconteceu foi por carência. Seria uma mentira… Seria uma mentira enorme se eu dissesse algo assim. […] Mas eu não posso continuar porque ainda penso nela e não quero te enganar e te iludir quanto a isso. […] Eu já estive em sua posição e também disse que faria a pessoa esquecer. Então, eu sei que isso não acontece. Não adianta ir colocando pessoas e mais pessoas pra tentar esquecer uma outra. E por mais que eu queira esquecê-la, algumas pessoas nos marcam bastante. E neste momento, percebo que meu coração não está desocupado. E quando colocamos uma pessoa num lugar não disponível, temos uma confusão… E eu não quero te colocar no meio duma confusão.

Abro mão e te deixo ir

O que eu queria te dizer? É algo que me questiono. É que toda essa inconstância, essas idas e vindas, esse eu te amo e depois tanto faz… Toda essa bagunça, essa intensidade-desastrosa incomodam e atrapalham. E eu não posso seguir em frente e dizer que acabou porque não colocamos um ponto final. Falamos. E no meio da fala deixamos de falar… Outra vez algo solto no ar sem finalizar. Algo por falar. Mais uma vez reticências. Mas o que eu queria dizer? Você pergunta novamente. Eu queria dizer que tô cansado de tentar te conquistar, de te convencer a ficar, e de brigar com esse teu medo que tem de continuar. Então, digo que agora paro de insistir. Não deixo em aberto. Abro mão e te deixo ir. Deixo-me ir! Coloco o ponto final e digo que não correrei mais atrás. Eu tô exausto de tanto correr! Quero-lhe bem. Quero-me bem. Mas essa inconstância e essa pontuação errada fazem mal.