Foi o pior melhor relacionamento

Era o primeiro relacionamento sério de ambos. Era a primeira vez que ambos estavam realmente apaixonados. Era um namoro cheio de sonhos e planos, ainda que com duas pessoas iniciando realmente a vida. Não sabíamos a dimensão do mundo, nem as surpresas da vida e muito menos como ela iria nos agredir. Tínhamos uma visão poética do mundo, do futuro e de nós mesmos. Vivemos tudo que uma relação assim tem direito. Amor, confiança, sexo, brigas, términos, voltas, traições, insegurança, desejo, ciúme, medo, paixão. Namoramos por cerca de cinco anos, com muitas inconstâncias e frustrações. Frustrações proporcionais ao aprendizado que tivemos. Tivemos as dificuldades de um namoro a distância. Tivemos um período de amor proibido. Tivemos um período em que parecíamos casados que moravam nas casas dos pais. Amamos, sofremos, choramos. Tudo com intensidade. Nos decepcionamos e nos magoamos mais do que qualquer outro namoro ou paixão que estivesse por vir. Foi a primeira vez que nos sentimos magoados, iludidos ou frustrados numa relação. Foi o aprendizado pra todas as próximas. Foram as primeiras vezes a sentir tais sentimentos. Era como descobrir um mundo nunca explorado por nós. Foi uma relação de sentimentos primordiais. Foi a pior relação. Foi a melhor relação. Hoje, podemos até termos as mesmas emoções, mas não os mesmos sentimentos, se são maiores ou menores agora, são dos aprendizados que essa nos trouxe.

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A luz no quarto permanece acesa

Ela não consegue dormir. Já passa das duas horas da manhã e o sono não chega. Tenta assistir televisão. Muda de canal várias vezes. Passa por todos os canais. Para em um por alguns minutos e depois volta a repetir o processo. Pega o celular. Olha as horas. Esquece as horas. Novamente olha pro celular querendo saber que horas são. Espera que ao tocar nele algo mágico aconteça. Ela espere que ele ligue na hora que ela pegar no celular. E com ele em sua mão, ela quer atender rapidamente na hora que tocar. Ela espera muito por isso, mas sabe que dificilmente irá acontecer.

Sem ponto final

Tínhamos terminado havia alguns meses. Terminamos sem um ponto final. Mas algumas coisas necessariamente não precisam de um ponto final pra terminarem. Elas apenas terminam. Mas sempre temos esperanças, que essas coisas que terminam sem ponto final, tenham uma continuação.

Acabou

Enfim, depois de tantos pontos colocados de forma errada colocamos um ponto final. Sem reticência, sem vírgulas. Acabou! Acabou de uma maneira diferentes das que tantas vezes ensaiamos quando terminamos sem terminar e voltamos. Terminamos sem dizer muito, até falamos algumas palavras, mas o que foi dito para que concluíssemos o final foi o silêncio constrangedor de palavras não pronunciadas. Acabou! Dessa vez sem volta e sem continuação. Apenas acabou.

Volte

A geladeira assim como eu só esvaziou desde que você se foi. É que a minha vida está tão largada quanto eu nesse sofá velho da sala. O controle da TV eu perdi e a TV se encontra naquele mesmo canal de filmes que você gostava. E numa reprise do seu filme preferido eu entendi como aquela cena é mesmo triste, me vi nela. A cama continua do mesmo jeito, conservo aquela bagunça pra não esquecer seu cheiro, recuso-me a deitar nela sem você. Nem o gato eu deixo subir. Aliás, eu queria dizer que ele sente tua falta e pediu pra você voltar. Confesso que eu desejo o mesmo, mas só estou pedindo porque ele pediu. Senão quiser voltar por mim, volte por ele.

Ah, o Tempo!

Os amigos estavam sempre dizendo “Só o tempo vai te fazer melhorar”, “Nenhuma palavra que eu disser vai amenizar essa dor, apenas o tempo”. O tempo! O tempo! O tempo! Era a única coisa que ela ouvia. E o tempo não curava, apenas piorava. “Quanto tempo, esse tempo vai durar, até que eu me sinta melhor?” Ela se perguntava. “O Tempo não ameniza nada” ela dizia. Ela achava aquela dor insuportável. Olhava o celular a cada dois minutos, ansiosa por uma mensagem, uma ligação ou alguma notícia de uma pessoa que não estava nem aí pro seu sofrimento. As horas se arrastavam, então ela dormia. Dormia pra não pensar nele. Dormia querendo acordar de um pesadelo. Os olhos estavam sempre fundos de tanto chorar. Parecia que o mundo inteiro era feliz, menos ela. Hoje, depois de algum tempo, ela olha pro passado e com um sorriso no rosto pergunta “Como eu pude ser aquela pessoa patética?”. Caramba! Como o tempo ajudou. Não lembra exatamente quando tudo mudou, mas não foi de uma hora pra outra. Lembra que um dia acordou, abriu os olhos e não teve aquela vontade de dormir novamente. Levantou, tomou o café, arrumou a bolsa e quando estava fechando a porta levou a mão ao cabelo e pensou “Caramba, esquecendo algo, mas não sei o que.” Ela esqueceu de sofrer por alguém que não valia a pena.

Depois do Fim

Dói. Até que a gente se acostuma e, de repente, a dor parece sumir. A anestesia funciona. O álcool funciona. Por um bom tempo funciona. Até que as lembranças que não foram embora, voltam. O álcool parece já não surtir mais efeito na dor e no esquecimento. As ressacas são, cada vez mais, emocionais que físicas. As festas já não distraem tanto. As pessoas, antes atraentes, são cada vez mais desinteressantes. As notificações no celular, que antes te faziam esquecer, agora se tornam esperança, de uma mensagem dela(e) aparecer.

Depois do término

Ela dormia esperando que quando acordasse descobrisse que tudo aquilo foi um sonho. Acordava e descobria que não era. Era real. Então dormia novamente. Dormia pra encurtar o dia. Dormia pra não lembrar. Dormia pra entrar num mundo só dela.
Ele, pelo contrário, pouco dormia, queria ficar acordado. Cada vez mais frequente e conhecido nas baladas. Figura carimbada da noite. Tinha várias válvulas de escape e o álcool era uma delas. Virava dias e noites bebendo. Colecionava bocas e camas.
Ela ouvia as histórias e chorava. Ele, por enquanto, ainda ria. Mas era inevitável, um dia se encontrariam. Era uma cidade pequena; era Brasília, e é quase impossível não esbarrar por aí em amores antigos.
Ele estava numa festa com os amigos. Ela chegou com as amigas e uns “novos amigos”. Ele a olhou entrando. Os segundos se prolongaram. Filmes passaram na sua cabeça; ligações dela das quais ele não quis atender e muito menos retornar, a primeira vez deles, as festas juntos, os sorrisos, os bons e até os momentos difíceis em que ela foi seu alicerce, seu pilar, sua base. Aqueles frágeis braços foram por muitas vezes sua fortaleza e por um erro dele tudo acabou. Uma traição infantil. E quando ela descobriu, ele já quis o fim. Queria curtir!
Hoje foi o dia em que ele se arrependeu. De novo estava encantado. Ela fingia não notá-lo. Ele tentava chamar a atenção. Ela sorria conquistando a todos em volta. Ela era linda; Ela estava linda. Ele apenas a olhava. O telefone dela tocou. Olhou no visor. Desligou. Pobre coitado, o coração dela cicatrizava enquanto o dele sangrava. A vida dela recomeçava enquanto o sofrimento dele se iniciava.