Na cama sentíamos prazer, na sala assistíamos TV

Éramos extremamente físico, mal nos beijávamos e já queríamos a cama. Quando saíamos queríamos voltar logo pra casa. Pro quarto. Quando estávamos no quarto temíamos a sala. Vivíamos de orgasmos. Desejávamos o sexo. Desejávamos o corpo um do outro. Mas era isso, era apenas isso. Na cama sentíamos prazer, na sala assistíamos TV. Entre a gente a conversa era forçada. Depois de um tempo pouco nos falávamos, trocávamos curtas e poucas frases cheias de respostas monossilábicas e acenos de cabeça. Hoje a gente se encontrou, um abraço meio sem jeito, um sorriso amarelo no rosto. Conversamos pouco, o de praxe, mas antes de nos despedirmos ela me disse algo. Disse que o sexo era perfeito, mas faltava algo.

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Não repara a bagunça

Na primeira vez que fui à casa dela, ela me disse o clichê: “Entra e não repara a bagunça”. É lógico que eu reparei, era a primeira vez que estava ali. Mas não tinha bagunça. Estava tudo muito organizado. Demorei um tempo até entender que ela não falava da casa. Falava dela. Da bagunça de sentimentos que era atrás daquelas roupas, acessórios e batom organizadamente combinados. Porque como Boa virginiana; a casa, o guarda-roupa e a agenda eram todas sistematicamente organizadas.

Os mesmos olhos castanhos que Renato Russo viu

Sempre fui apaixonado por olhos castanhos, e aqueles dois eram um par grandes e belos olhos castanhos. Mas não qualquer tipo de castanho, são desses que mudam de tom: hora estão claros, em outra estão escuros. São olhos de camaleão, que se adaptam ao tempo ou humor. Um olhar que diz muito com uma pequena expressão. Expressivos à lá James Dean. Ao mesmo tempo em que são fortes são melancólicos. São olhos selvagens. “Veja o sol dessa manhã tão cinza, a tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos”, será que foram os mesmos que Renato Russo viu? E eu que tenho uma queda por olhos castanhos, digo até que não tenho imunidade contra um belo par de olhos assim, fui justamente encontrar um desses.

Autossabotagem

Querofobia é o nome dado pra quem tem medo de ser feliz. Pois é, acredite, há pessoas que sofrem por fobia de felicidade. Ela é uma dessas, faz uma espécie de autossabotagem quando está feliz com alguém, começa a criar um medo sobre o que irá acontecer daqui a uma hora ou no mês que vem. Pergunta pra si: “O que ele viu em mim?”. E acha que não tem nada que possa prendê-lo e que o faça ficar. Sente-se insegura e com raiva, mas sente raiva dele, porque ele vai deixá-la. Ela acredita nisso. Depois discorda de algo que ele diz e fica irritada quando ele sorri. Acredita que aquele sorriso irá embora. Acredita que um dia, ele irá embora. E antes mesmo que isso aconteça, ela o manda sair.

 

Conhecer alguém bem é maravilhoso

Conhecer alguém bem é algo maravilhoso. Eu não tô falando de saber o filme, gênero musical e comidas preferidas, isso nós descobrimos em algumas stalkeadas ou com perguntas no Curious Cat. Eu digo sobre saber que a pessoa gosta de cinema, mas prefere assistir filme na fileira H cadeira 8. É saber que seu filme preferido é “Se7en: os sete crimes capitais”, mas que ela assiste a “Questão de Tempo” toda vez que está triste. É saber que ela ama Legião, mas prefere ouvir “Por Enquanto” na voz da Cássia Eller. Porém se irrita quando alguém diz que a música é dela. É saber que ela sabe todos os erros e falas do Renato Russo no álbum “Como é que se diz eu te amo”. É saber que ela discorda, rebate ou desconversa ao invés de agradecer um elogio. É saber distinguir seu riso espontâneo de uma risada forçada ou controlada. É entender pelas suas expressões faciais que ela está preocupada com algo. É saber que quando ela passa a mão direita no cabelo quer dizer que ela está tímida, mas quando passa a esquerda está desconfortável. Conhecer alguém bem vai muito além de perguntas e respostas sobre o que a pessoa gosta ou que não gosta. Na verdade, conhecer alguém bem é a ausência de perguntas.

Aquela camisa fica melhor no seu corpo que no meu

Estava escolhendo uma camisa pra sair e encontrei aquela que você amava. Lembrei então de você vestindo-a, deixando as pernas e a tatuagem na coxa direita à mostra, e rebolando seu quadril por toda casa. Confesso que mesmo larga no seu corpo franzino, mesmo caindo por um ombro e por deixar metade do seu corpo nu, ela fica melhor em você do que em mim. E olhando pro meu guarda-roupa, percebo que algumas camisas são caras, outras têm valor sentimental, mas essa me faz lembrar você, de todas elas é a que tem o maior valor.

Ela é tímida

Ela é tímida. Odeia ser vista. Mas como eu gosto de observá-la. Sempre gostei de garotas assim, dessas que se escondem, que não querem chamar atenção e fazem um esforço tremendo pra isso. É uma pena! Elas são as que mais deveriam ser enxergadas. Pobres tolos e ingênuos mortais são aqueles que almejam as que mais clamam por atenção, dessas que acreditam fielmente que precisam ser vistas para serem notadas, elas fazem um esforço tremendo para aparecer, mas não têm nada a oferecer. Eu prefiro as que se escondem. Aliás, os tesouros mais valiosos são os mais escondidos.

Se apaixonar depois de tanto tempo é como dirigir numa mão inversa

Nós evitamos tanto não se envolver e não se apegar por causa de experiências antigas, que quando isso acontece, depois de muito tempo evitando, não sabemos como agir. É como se fossemos um motorista num local estranho sem saber pra onde ir e qual via pegar. O GPS está desatualizado. Somos um motorista primeira viagem indo dirigir em Londres. Sabemos dirigir, mas não dessa forma, não numa mão inversa. Temos que aprender novamente. E o mesmo acontece com o amor.

Acabou

Enfim, depois de tantos pontos colocados de forma errada colocamos um ponto final. Sem reticência, sem vírgulas. Acabou! Acabou de uma maneira diferentes das que tantas vezes ensaiamos quando terminamos sem terminar e voltamos. Terminamos sem dizer muito, até falamos algumas palavras, mas o que foi dito para que concluíssemos o final foi o silêncio constrangedor de palavras não pronunciadas. Acabou! Dessa vez sem volta e sem continuação. Apenas acabou.